Ando
pelas ruas da cidade. Bandeiras, carros enfeitados, vuvuzelas, fitas verdes e
amarelas. Sou um otimista; acredito que as coisas vão dar certo por um tempo.
Lembro-me de me apaixonar por uma garota quando cursávamos a sexta série. Era um amor de brincadeira; achava divertido levar os foras que ela me dava todo dia. As primeiras paixões são como o canto das sereias na Odisseia: elas nos puxam para fora das nossas infâncias e fazem a gente querer ficar mais velho logo. Pensava comigo: "Tenho que insistir, sem desrespeitá-la ou aborrecê-la, é claro".
Ficamos amigos e nos aproximamos; ela não levava a sério minhas juras de amor. Nem eu mesmo as levava! Sabia que nunca iríamos namorar. As meninas queriam os garotos da oitava série ou os que já estavam no primeiro ano do Ensino Médio. Eu tinha que atingir esse nível de escolaridade se quisesse chamar a atenção de alguém como ela. Bem que minha avó falava da importância dos estudos; ah, a sabedoria dos mais velhos! Ainda assim, não passava nenhum dia sem que eu a xavecasse. Vou explicar para os mais jovens: essa era uma gíria da época que significava fazer cortejo a alguém.
— Ih!
Acho que vai ser só na próxima encarnação. Se me amar tanto quanto diz, o tempo
vai passar rápido.
— Bom, já que vai ter tempo, aproveita e faz as lições para mim, vai... Que amor é esse em que não se fazem sacrifícios?
—
Poxa, eu não faço nem as minhas...
— Então, tem tempo de sobra! Olha, quando
escrever a redação, faça no capricho, tá? Estou com notas baixas em português.
Meu amigo disse:
—
Nossa, ficou feio, hein? Se eu fosse você, mudava de assunto ou de escola!
— Eu
posso mudar de assunto, ingrato! O que não posso é calar esse amor que me
consome! E você acabou de perder a oportunidade de colar de mim nas provas.
—
Nossa, como você é linda! Já nasceu assim ou foi, aos poucos, roubando o brilho
dos feixes do sol?
E ela:
—
Putz... Com uma cantada dessas não vai ter chance nem na próxima encarnação. É
brega demais, até para o seu padrão!
E eu:
— Viu?
Foi bom falar agora. Assim, na encarnação boa, a que você vai me dar uma chance
de te fazer feliz, não digo coisas desse tipo. Às vezes a gente pensa em uma
coisa e acaba não falando. Supomos que é intuição, precaução, mas não é nada
disso. Na verdade, é uma memória espiritual. Não deu certo na vida anterior,
melhor não tentar nessa.
— Você acredita mesmo em espíritos? É espírita?
— Bom,
sim, eu acredito em espíritos. Tenho muito medo que um deles entre em contato
comigo. Não é nenhum preconceito, mas a ideia da coisa me apavora um pouco.
— Qual sua religião então?
— Meus pais são espíritas, meus avós,
católicos. Daí tinha duas opções.
Em uma, eu buscaria o aperfeiçoamento do meu caráter, cuidaria bem do corpo que Deus me deu, caminharia em direção à bondade e purificação. Encarnaria e desencarnaria quantas vezes fossem necessárias, trabalhando o crescimento da minha compreensão e o desapego ao materialismo e, quando finalmente me tornasse um espírito evoluído, ganharia como prêmio mais tarefas ainda, auxiliando as almas que ainda caminhavam em trevas. Naqueles livros do Allan Kardec que meu pai lê, nunca foi mencionado que, após tantos séculos de dedicação intensa, determinação e perseverança, alcançaríamos a graça de poder nos alimentar eternamente de chocolate e Coca-Cola, sem engordar um só grama. Entraríamos invisíveis em rodízios de pizza e poderíamos degustar de tudo sem sermos vistos e depois, simplesmente sairíamos; sem pagar a conta. Por que nos privar daquilo que conquistamos com esforço? Um reconhecimento justo, na minha opinião.
No Candomblé, no entanto, os fiéis até presenteiam as entidades com refeições e drinques. Eu já acho essa atitude melhor que a dos kardecistas, que só pedem e não dão nada em troca.
— E
espíritos se alimentam de comidas gordurosas e açucaradas, por acaso?
—
Acredito que os do Candomblé, sim. Além do mais, o que você sabe sobre
espíritos? Hein?
— O
mesmo que você: absolutamente nada!
— Bom,
se é assim, me permite continuar e concluir o raciocínio?
— Por
favor, fique à vontade, quero ver como acaba essa palhaçada.
— Pois
bem; na outra opção, eu encontraria um Deus que já morreu por meus pecados previamente;
corrupção, traição, vinho e mais pecados ainda e, se eu fizesse uma asneira
muito grande, poderia me confessar mostrando arrependimento e ser perdoado.
Adivinha qual eu escolhi. Parece meio óbvio, né?
Mas eu tinha que me dedicar a outras práticas para esquecer meu amor de brincadeira por algum tempo. Bastava que os garotos da rua tocassem a campainha de casa e me chamassem, dizendo as palavras mágicas: "Aí, gordo, bora jogar um futebas", para eu largar qualquer coisa que estivesse fazendo; mesmo quando estava estudando para as provas da escola, praticando música ou buscando informações nas revistas de conteúdo adulto que lia, trancado no banheiro.
Como não tinha habilidades com a bola, era preciso mostrar coragem; acabei me tornando um goleiro razoável, modéstia à parte. Não passava um santo dia em que não voltasse para casa sangrando, com os joelhos ou cotovelos esfolados, dedos com unhas quebradas, lábios ou supercílios abertos, vários cortes pelo corpo; já meu irmão caçula era o artilheiro, penetrava fácil na zaga dos outros times e chutava forte com os dois pés.
Não sabíamos, mas éramos socráticos.
As regras serviam exclusivamente para os jogos e para as guerras, o que era a mesma coisa, no nosso caso. Acho que no mundo todo o objetivo do adolescente, quando joga futebol, é superar o time da rua de baixo; não importa em que lugar do país ou do planeta, sempre tem a rua de baixo. E os moleques de lá causam ódio e um tipo de respeito. Então, para nos tornar homens de verdade, era preciso vencê-los no campo, dentro das linhas que desenhávamos com giz, sem a presença de juízes. Isso provocava a maioria das desinteligências e algazarras que ocorriam durante o calor das partidas.
Nós divergíamos com relação a certas questões técnicas como, por exemplo, se foi pênalti aquela falta que eu fiz dentro da nossa área, derrubando o atacante adversário, ou se valeu o gol que fizemos quando chutamos contra a trave deles e a bola ultrapassou a linha divisória, mas o goleiro a apanhou em seguida, antes que ela encostasse nas redes!
Nos estapeávamos, gritávamos, puxávamos as camisetas deles e eles as nossas, desferíamos sopapos nos meninos do outro time e eles davam o troco! Não durava muito; em pouco tempo estávamos arrependidos, pedindo desculpas, chorando e nos abraçando. Vencia o espírito esportivo. Mas na próxima vez eles iam ver! Daríamos o troco, derrotando-os.
Quando ia para casa, sujo, estourado e certo de que ouviria uma lição de moral da minha mãe, do meu pai ou de ambos, voltava a pensar na menina de quem eu gostava. O que eu iria dizer para ela amanhã? Improvisar é um requisito essencial em todos os momentos da existência, mas era preciso, ao menos, um esboço de roteiro. Eu até anotava algumas ideias num caderno: "Vou falar para ela: eu sei que não tem culpa por ser tão bonita, mas assim as flores todas vão murchar de vergonha; conte comigo, vou plantar quantos jardins forem precisos para você não viver sem ver as primaveras. Na falta de coisa melhor, vou mandar essa”.
A gente passava mais tempo rindo do que levando as coisas a sério. Gargalhávamos espalhafatosamente, sem vergonha de abrir a boca expondo dentes e gengivas, de soltar a voz alto e de exagerar na felicidade. Era quase um estado de histeria. Acho que o mais correto é dizer que vivíamos um êxtase, ligados por uma corrente elétrica cuja tensão era tão alta que não haveria possibilidade de separar o que era eu do que éramos nós. De vez em quando me sentia poderoso como um herói, porque podia amar e odiar muito, confiar muito, lutar muito, debochar muito, me entregar muito — tudo muito.
Ser jovem é parecido com ser um raio.
Abraçávamo-nos, andávamos com as mãos entrelaçadas, emprestávamos tudo o que era nosso uns para os outros, tomávamos banhos de chuva enquanto brincávamos na rua e tomávamos bronca quando chegávamos em casa, com as roupas molhadas pingando no chão da sala. Comprávamos as brigas dos nossos amigos. Brigou com um, brigou com todos. Éramos imensamente mais íntegros do que somos hoje.
Não sabíamos, mas éramos sábios.
Porque, para nós, a juventude nunca ia acabar, e nos divertir com tudo o que estava na nossa frente era um compromisso, uma credencial para pertencer àquele tempo e ser parte daquele grupo que jurou não se separar e nutrir amor eterno, na saúde ou na doença, na pobreza ou na tristeza, na alegria ou na alegria.
Como conseguimos ficar surpresos hoje quando lembramos que éramos mais felizes antes? Caramba, o que fiz depois que acordei? O dia vai acabar daqui a pouco e não lembro de nada que eu possa guardar. Não abracei ninguém que gosto. Não disse: "Eu te amo, você é importante para mim". É melhor eu fazer isso agora mesmo, antes que seja tarde, é urgente!
Essa história, contada em primeira pessoa, é inteiramente verdadeira. No entanto, alguns dos diálogos aqui relatados não aconteceram exatamente comigo. Ainda assim, todos os que estiveram presentes, participando das mesmas cenas e vivendo a mesma adolescência, são donos dessas lembranças e têm o direito de contá-las à sua maneira.
Estávamos certos, aquilo nunca morreu. Dentro das nossas memórias, nós jamais nos separamos.



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