FIM DE TARDE >> KIU OLIVEIRA
A vida é um sopro, a gente, o pó, ouvi meu pai dizer para a minha tia, ao telefone, algumas horas depois do enterro da minha avó. Me aproximei e, antes que eu perguntasse se as brincadeiras também estavam de luto, ele me mandou ir ao parque, para ver os meus amigos. Fui até a pia da cozinha, peguei o detergente pela metade, chamei a Marcela em seu quarto e atravessamos correndo a porta da rua.
O sol estava grande quando chegamos ao parque. Em seguida, apareceram a Cecília e o Douglas com o seu tio, um homem do tamanho de uma árvore, de olhos inquietos. Entreguei o detergente para o amigo, que o misturou com água e açúcar, enquanto conjurava aos risos: sim sala bim. Distribuímos os copos que a Cecília trouxe e os enchemos com o preparo. Marcela não parava de olhar para o tio do Douglas. Sinalizou que precisava falar comigo, então começou a caminhar em minha direção, mas desistiu e foi embora, alegando — em voz alta — ter se lembrado que haveria prova no dia seguinte.
Mergulhamos as hastes com as argolas no preparo dentro dos copos, retiramos e sopramos devagar, bolhas povoaram o céu. Por todo o gramado do parque, outras crianças faziam o mesmo. Algumas bolhas estouravam antes de alçar voo, outras insistiam, zanzavam na imensidão; perfeitas, maleáveis, feito geleias espaciais. As que subiam alto, o sol tingia com muitas cores, e podíamos contemplá-las, até a luz ofuscar nossa visão, ou elas sucumbirem.
“Feito Ícaro”, gritou o tio. Ninguém entendeu, mas também não perguntou significado. Ele enfiou as mãos nos bolsos e disse que ele não tinha um nome, mas muitos, e que não diria porque não daríamos conta de lembrar. Admitiu que queria soprar as bolhas e pediu os nossos brinquedos. Em troca, nos ofereceu doces. Nas mãos abertas dele cabiam os de amendoim, de leite, de abóbora, de coco e de banana. Guloseimas à beça, mas não era certo receber agrado de estanho — me lembrei do conselho dos meus pais. Dei um passo para trás e fiz que não com a cabeça. Os outros aceitaram. Quem mais ganhou doces foi a Cecília. Ela me deu alguns, em segredo, depois de o tio ir embora.
Na semana, não apareceu na escola, a professora avisou que a Cecília estava doente. Um mês depois, e ela não melhorava. Chamei Douglas e Marcela para irmos até a casa dela; ele saiu correndo sem dizer se iria ou não. Marcela foi comigo e, no caminho, apesar de repetir que era melhor deixarmos para outro dia, aceitou a minha decisão. Batemos na porta por quase meia hora, até a mãe sair — os olhos feridos — e nos convidar para entrar.
Perguntei três vezes pela Cecília, a mãe sinalizou para esperarmos e nós esperamos, até o pai aparecer e esbravejar para irmos embora. A mãe o acalmou e nos pediu desculpas. Em seguida, disse para a gente esperar mais um pouco e foi com ele em direção à cozinha. Dava para ouvir os cochichos.
Não passou muito, ela reapareceu e sinalizou para a seguirmos, nos levando até o quarto da filha. Lá havia uma cama, bonecas arrumadas no canto da parede, algumas fitas de cabelo, um espelho, produtos de beleza e um pente sobre a cômoda.
Cecília não estava lá.
Nos fins de tarde dos anos seguintes, menti para o meu pai que ia ao parque, quando me aconselhava a ver os meus amigos. Eu perambulava pela vila, até a noite chegar.



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