ICEBERG90 >> KIU OLIVEIRA


 

“Alô. Mãe?”

“Filho, vieram entregar as chaves, a casa está liberada. Preciso que busque algumas coisas da sua irmã, porque eu...” 

(Telefone mudo) 

“Mãe, ainda está na linha?” 

“Eu não consigo...” 

“A senhora dormiu bem?” 

“Você viu a matéria na tevê ontem?” 

“A senhora prometeu ficar longe das notícias.”

“Promessas são uma merda, filho. Sabe quantas vezes sua irmã prometeu sair daquela casa?”

(Telefone mudo) 

“Mãe, eu vou. Só preciso terminar de corrigir algumas provas do colégio. Eu passo aí mais tarde.” 

Sem conseguir retomar o trabalho, entro no carro. O cheiro do perfume doce da minha irmã mora nele, embora eu não tenha uma lembrança dela dentro do veículo. Minha mãe me recebe e quer saber como estou enquanto entrega as chaves. Não pergunto se ela está bem. Da última vez, a pergunta rasgou sua ferida, e eu tive que passar a noite ajudando a estancar o sangramento. Repete que eu só preciso ir até lá, pegar os livros, as fotografias e o diário, o que fica guardado no cofre do quarto. 

“A senha é iceberg90. Entendeu, filho?”

A senhora nem imagina o quanto, mãe, penso, mas não digo. Vou dirigindo até a casa da minha irmã. Chegando lá, abro a porta da frente e entro com cuidado para não estragar as caixas de papelão. Pedaços de fita zebrada, com uma das pontas presa na parede e a outra solta, dançam na sala, e isso lembra a minha irmã em dias de festa; alegria e ritmo. 

O sofá está seco. Há nele uma grande mancha escura transgredindo o cinza claro, cor que ela escolheu com gosto na loja de móveis planejados. Não consigo olhar para ele o tempo necessário para mensurar o formato e o tamanho da mancha, seu tom. 

O cheiro dela ocupa a casa toda. 

Há copos descartáveis, guardanapos e pratos plásticos espalhados no chão. Recolho os porta-retratos da estante e os arrumo em uma das caixas. Em seguida, é a vez dos livros que restaram. A maioria da coleção, minha irmã doou para uma biblioteca pública, dias antes do ocorrido. Entre os que ficaram está o que ela mais gostava: O velho e o mar, de Ernest Hemingway. Uma caixa é o bastante para organizar todos. 

Vou até o quarto, o lençol e os travesseiros estão arrumados, tem uma camada de poeira sobre eles. Me aproximo e percebo que a poeira foi invadida, há nela letras e rabiscos que nada me dizem, a não ser que alguém esteve ali há pouco. Não pode ter sido minha mãe. O Clóvis, também não — da cadeia espero que ele vá direto para o inferno. Será que foi minha irmã tentando dizer as últimas palavras? A verdade é que ninguém fica bem numa hora dessas. Os pensamentos flertam com a demência. 

Digito a senha no cofre, a porta se abre e eu fico, por não sei quanto tempo, olhando para o diário e seu pequeno cadeado. Vasculho e não encontro a chave, mas isso não será problema; uma pequena serra resolverá o entrave. Então, ouço passos ao longe. Pego o diário e o guardo na mesma caixa em que está o livro preferido dela. Deixo o quarto, na sala não há mais as fitas de isolamento, e a estante parece fora do lugar. Sobre o sofá, espuma de sabão. 

Algo parecido com um gemido ecoa em algum ponto da casa. Sigo o som, que parece se mover pelos cômodos, nos quais não encontro ninguém. Resta a lavanderia, que fica logo após a porta dos fundos. Vou até lá e me surpreendo com a visão difícil de assimilar: o homem que um dia eu chamei de meu pai. Ele parece igualmente surpreso, chora alto e não diz nada. Não vem me abraçar, segurar minha mão, nada. Talvez ele volte em alguns anos, quando eu seguir o mesmo caminho que a minha irmã, e chore alto, abraçando minhas roupas, como faz agora com as dela. Dói nele mesmo ou é o tal teatro sobre o qual minha mãe sempre falou? Não espero entender. Não quero. 

Não conto para a minha mãe sobre ele. Ela não quer detalhe de nada, exige apenas o que pediu. Entrego os porta-retratos e os livros. Ela os ajeita em sua estante. 

“Onde está a agenda, filho?”

Comentários

Anônimo disse…
Texto profundo!!

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