MAIS >> JANDER MINESSO
Ninguém sabia como aquele bichinho raquítico tinha aparecido na vizinhança. Apesar de desgrenhado, tinha algo de fascinante, quase sedutor. Logo foram buscar comida, porque o coitado sem dúvida tinha fome. Ele devorou o naco de qualquer coisa e pediu, com olhos de dó:
– Mais?
Acharam graça que ele sabia pedir. Comovidos, foram buscar um petisco em casa. Uma criança até chamou a mãe para ver o monstrengo e, quem sabe, trazer as sobras do almoço. Logo havia um banquete modesto ao redor da pequena besta, que engolia tudo sem mastigar. Os olhinhos brilhavam.
– Mais?
Que apetite espantoso! Quem estava por perto saiu à cata do que havia para oferecer à aberração. Logo a história se espalhou pela cidade e uma multidão começou a se juntar na praça, todos com algum quitute nas mãos. A essa altura, o animal já tinha ganhado porte, mas o apetite não diminuía. A cada mordida, a mesma demanda.
– Mais.
O que já tinha sido um ganido agora ganhava peso. O som vinha da mesma garganta que deglutia cada oferenda, grande ou pequena. Gosto, não sentia. Apenas consumia o que fosse. Quando deram por conta, o demônio já estava imenso. Parar de alimentá-lo não era mais uma opção e, temendo o pior, a turba gritava antes que o próprio bicho o fizesse.
– Mais!
Já sabiam o que aconteceria, mas que opção havia além de saciar a bocarra? Quando o alimento rareou, empurraram alguém das primeiras fileiras para perto dos dentes, que partiram o coitado ao meio no primeiro bote. Nenhuma surpresa. Logo havia uma fila de conformados se lançando à garganta da fera, que fedia feito um açougue. Ninguém fugia. Quando a plateia começava a diminuir, os remanescentes gritavam:
– Mais!
Sempre aparecia gente.
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Imagem: Walti Göhner por Pixabay



Comentários
to assustada aqui. Veja a época que estamos entrando, logo é outubro. Tua cronica arrisca de deixar de ser metáfora para virar profecia! Até lá, mais!!!