FLORES VIVAS DE PLÁSTICO >>> Ionio Paschoalin

 


A luz passava pelo vidro da janela e batia na travessa que unia os pés da mesa de jantar, feita de cerejeira.  A parte iluminada pelo feixe era toda entrelaçada, parecida com cabelos trançados, que eu via por trás do colo vazio de uma poltrona de couro marrom. Velha e orgulhosa, morava naquela sala há muito tempo; presenciou o compartilhamento e a solidão com a mesma distância, sempre disposta a acolher todos que, nela, procuraram um abraço.

Estava frio dentro e fora de mim, e isso era natural. Sou do mês de julho; aquele dia era o meu aniversário.

Nascer no inverno faz você gostar de temperaturas baixas. Quando não há vontade alguma de sentir calor, fica óbvio o desejo de fazer parte de tudo o que é gelado: ser uma célula do material que forma a neve e pronto; solitário como os ventos polares, passageiro, um viajante que faz arrepiar a pele das pessoas. Não escolhemos nossas datas de nascimento; então, as características que descrevi são consequências naturais do caos.

Mesmo os que não acreditam em astrologia, admitem que as impressões do primeiro mês de um recém-nascido o marcarão durante sua vida. Neste hemisfério, nascer sob o signo de Câncer significa, na maioria das vezes, ser banido de um útero quente e recebido durante o inverno. Talvez o próprio frio nos tenha escolhido; isso faria algum sentido, pelo menos para mim. Se eu tivesse essa certeza, nada mais perguntaria; não exigiria as explicações que anseio sobre as origens e os destinos das coisas. Isso me traria alguma satisfação. Eu não sentiria fome o tempo todo e saberia que fiz parte de uma seleção; que fui arrancado de algum lugar por um bom motivo e que pertenci a um grupo. Sim, eu teria uma história melhor para contar.

Sigo sem os recursos tecnológicos necessários para iniciar as pesquisas científicas que, um dia, provariam minha crença de que nós, cancerianos, não tivemos a opção de recusar o apelo do gelo que nos convocou. Não temos pressa para a chegada da primavera: é nesse tempo que começamos a derreter.

Depois de sobreviver por tantos anos, admito que todo êxtase que tive cobrou seu preço, enviando agonias tão profundas que tornaram meus deleites em delírios tortuosos. Eu a esperava. Nosso amor era velho e orgulhoso e, como aquela poltrona, estrilava e rangia mais do que antes. Ela terminou de se maquiar:  Vamos?

Saímos do apartamento e caminhamos em direção à praia. Em determinado momento olhamos um para o outro e, por um instante, abrimos as nossas portas um para o outro. Ela estava machucada por dentro dos olhos, bem atrás do humor vítreo, muito perto da alma.

Talvez a tristeza tivesse se espalhado e a manchado para sempre. Não havia como saber exatamente as consequências daquela melancolia; se a mágoa, como metástase, tinha se embrenhado nos buracos do seu espírito. No caminho, vimos um armarinho e entramos. Era enorme, dividido em dezenas de corredores apertados, cheios de todo tipo de quinquilharias.

Percorri o armazém buscando nem sei o quê; só sei que precisava muito encontrar aquilo. Foi estranho. Depois de andar um bocado, deparei-me com uma gôndola que me fez parar. Nela, estavam pendurados folhagens, avencas, trepadeiras, musgos; flores como rosas, begônias, margaridas e outras menores e mais delicadas ainda. Senti-me natural de novo. Foi aí que percebi que me transformara numa forma de vida artificial; estava num lugar ermo e selvagem, onde poderia afundar meus pés em terra molhada; cheguei até a imaginar que cheirava a seiva das plantas. Num deslumbre, olhei para meus braços e vi linhas de náilon costuradas neles. Eu tinha anzóis fincados nas minhas pálpebras de marionete, alinhavadas em uma cruzeta, e o marionetista poderia abri-las e dizer: “Acorde”. Depois diria: “Pois agora, viva e dance”. E depois, provavelmente: “Pois agora, morra; vou te guardar no fundo da gaveta até nossa próxima apresentação”.

Não queria mais ser ignorado nem dispensado, mas pressenti que isso aconteceria, de vez em quando, enquanto eu continuasse despertando e tentando evitar tais situações.

Descobri que era um robô com memórias de uma pessoa viva que existiu de verdade. Porém, eu tinha perdido a lembrança mais importante: o caminho que me traria de volta. Quis muito ser real naquela hora; depois, fui me distraindo enquanto observava os prédios no entorno.

Reparei o prédio marrom-escuro e senti cheiro de café. Vi outro, maior ainda, e senti medo por ser eu tão pequeno diante dele e de tudo mais. Aquelas construções simplesmente não faziam sentido. Estavam tão perto uma das outras, que compunham um agrupamento desastroso. Pareciam se ofender dadas suas discrepâncias, porém, vendo-as todas de uma vez, compunham uma harmonia bizarra

Ao embaralhar edifícios, praia e céus, as coisas se encaixavam; eram dissonantes e as imagens eram lindas, de certa maneira. Qualquer pensamento, ou outro veículo, nos conduziria fatalmente até o final daquela tarde.

 

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