BAGAÇO >> MÁRIO BAGGIO

 


A mãe disse que daria uma laranja madura para a filha se ela se comportasse e fizesse o que tinha pedido. A garota, com esforço sorridente, se comportou e fez a vontade da mãe. Então a mulher, gargalhada imunda nos olhos e nos dentes, chupou a laranja e jogou o bagaço no colo da menina. A pequena agarrou o resto seco da fruta e ficou um tempo olhando pela janela — para o nada, para o infinito. Seus olhos, acumulados de tanta pena e desprezo em sua curta vida, estavam fixos nalgum ponto lá fora, saturados como os de uma velha.

 

A garota escreveu uma história curtinha para apresentar na escola. “Seria melhor se escrevesse um livro inteiro”, disse sua mãe. A menina construiu uma casa de bonecas para brincar com suas amiguinhas. A mãe desdenhou: “Muito melhor seria se fosse uma casa de verdade.” A pequena tricotou um cachecol para seu pai, que gostava de ver televisão deitado no sofá. “Que perda de tempo! Melhor seria uma manta, muito mais útil”, decretou sua mãe. A garota cavou um pequeno buraco no jardim para plantar as flores de que mais gostava. “Tenha paciência! Por que não faz logo uma cova grande e se enfia lá dentro?”, ralhou sua mãe, contrariada. A menina cavou então um buraco muito maior e meteu-se lá, para dormir um pouco. “Seria muito, mas muito melhor se dormisse aí para sempre”, finalizou sua mãe.

 

Imagem: Gianni di Mingo

 

Comentários

  1. Triste e real para tantas pessoas, tantas pessoas. Um texto lindo, sobre uma situação terrível.

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  2. Baggio, como eu admiro essa sua capacidade de encontrar poesia nos piores cantos do ser humano.

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  3. Baggio... Baggio vc é mais um não lerei num domingo à noite. Que texto fantástico! Sem um drama, sem uma pieguice e de uma tragédia indescritível. E ainda expôs um tabu: de que 'mãe é mãe' e todas são maravilhosas. Ui.

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  4. Há assassinatos dos quais a lei não se ocupa.

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  5. Maravilhoso. Neste caso, a crueldade é explícita. Tem relações que ela é quase imperceptível.

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