UMA DAS NOITES DE NINFÉIA >> Ana Raja
Se aparecesse uma hora depois da habitual, me encontraria recolhida.
Tira da bolsa um maço de cigarro. O fogo demora a pegar na ponta branca do papel. Senta ao meu lado e puxa a fumaça, com tal força, que, mesmo na condição de espectadora, me faltar o ar. Quando lança para fora o que restou, uma leve tontura me balança. Fuma um, dois, três, então deita de bruços no mármore respingado de água parida pelo sereno. Quando se levanta, bicos dos seios salientes por baixo da seda fina. Calcinha marcada na única parte que me parece suave.
Talvez sinta saudade.
Raiva.
Talvez sinta solidão.
Antes de ir embora, se aproxima de mim. Abaixa a cabeça, e me cheira com a mesma força de quando puxa a fumaça pesteada. Perco pétalas com o seu toque desagradável. Minha cor - sempre tão viva - começa a esmorecer.
Ela se levanta, pega a bolsa caída no chão, faz o sinal da cruz errado. Avisa que amanhã me levará para a puta que destruiu a sua vida. Me fecho no cair da noite e rezo para morrer de vez.
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As dores delas, primeiro livro de Ana Raja, está a venda no www.editoraurutau.com.



Demorei para entender o que estava acontecendo. Quando caiu a ficha, reli do começo. Deve ser doloroso aguardar esse destino, mas vale o ditado clássico: das piores situações saem as melhores histórias.
ResponderExcluirSua crônica tem a delicadeza e os espinhos de uma dlor. Lindo D+
ResponderExcluirquem ficou tonta fui eu, com tantas leituras e camadas. Ana Raja, a Sutil
ResponderExcluirTeste
ResponderExcluirDos textos mais curtos podemos extrair as mais doces emoções; nas pequenas palavras encontramos o extraordinário. Uma crônica simples, porém bela. Um final inesperado repleto de sentimentos: dor, saudades e melancolia. A espera de que algo volte a ser como era antes... Lindíssimo!
ResponderExcluirAna, você transforma as dores delas em nossas dores. Uma espécie de solidariedade obrigatória. Muito bom!
ResponderExcluirUma dor generalizada, impossível não sentir empatia.
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