O melhor poeta da minha geração foi internado num hospital psiquiátrico
no mês passado. As enfermeiras, armadas de pistolas com tranquilizantes, atormentam-no
dia e noite. A cada vez que ele solta um verso, elas o imobilizam para que
engula um comprimido — e o verso junto.
O melhor cantor da minha geração conseguiu emprego num call center no
turno da noite. Ele segue o script dado pelo supervisor e sempre atende às
ligações como se estivesse cantando. Do outro lado da linha, o cliente, furioso,
não percebe o Dó de peito cheio de tristeza que sai de sua boca quando diz: “Vamos
estar analisando a sua reclamação.”
O homem mais beato da minha geração trabalha para um contrabandista de
couro de animais. Ele mata jacarés, tira a carcaça e a prepara para chegar ao
receptador em outro país. O couro dos bichos viaja por navio até a Europa. Também
por navio chega o pagamento pelo trabalho realizado. Os navios são muito lentos
na travessia e é por isso que o dinheiro demora tanto pra chegar às mãos dos
trabalhadores, justificam os chefes do contrabando. O mais beato se conforma.
O melhor matemático da minha geração, quase morto de fome, decidiu ser coach
de estagiários depois de analisar as estatísticas e as probabilidades de obter
sucesso nesse ofício. Para ele, os estagiários são o futuro das empresas.
Trabalham muito, ganham pouco, não têm benefícios. Os empresários os adoram. Outro
dia, o matemático me sussurrou ao ouvido: “O valor do Pi ensinado nas escolas está
errado.”
O melhor cozinheiro da minha geração hoje espreme laranjas e vende espetinho
vegetariano num quiosque de praia no Guarujá.
A mais bela da minha geração organiza a fila de visitantes na entrada do Museu
do Ipiranga, em São Paulo. Ainda conserva o sorriso bonito, apesar dos dentes
cariados e das raízes pretas nos cabelos tingidos de loiro.
O melhor comediante da minha geração morreu ontem em absoluta miséria: seu
corpo ossudo, a dentadura triste e o rosto num esgar de pânico e tristeza foram
bem recebidos pela Morte, que morreu de tanto gargalhar.
Imagem: Pixabay
E la nave va. Obrigado pela dose de realidade, Baggio. O sábado estava ensolarado demais.
ResponderExcluirPorrada matinal pra botar os chacras no lugar e lembrar q infelizmente mais vale o valor que o mundo te dá que o valor q vc tem
ResponderExcluirBaggio, como é bom ler você. Belíssimas construções. O comediante é fantástico.
ResponderExcluirlembrei de mim. Era psicóloga recém-formada e trabalhava no call center.
ResponderExcluirLembrei de um meme onde um recepcionista se parece com o Jesus Cristo das imagens (aquele clássico loiro de cavanhaque) e a legenda diz: "Não tá fácil pra ninguém" kkk Boa!
ResponderExcluirA vida anda difícil até, ou principalmente, para os melhores.
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