PERSIS(TENTE) >> Soraya Jordão
O esquema de sobrevivência é simples: se complicar, demorar ou dificultar, desista! E assim vamos seguindo na base da criatividade, do traquejo e do pinote.
Com a maturidade, de forma mais intuitiva, percebi o saldo das perdas acumuladas e a importância das estratégias para vencer a mim mesmo todos os dias. Porém, hoje, num dia como outro qualquer, a natureza me ofereceu um exemplo prático sobre a dimensão do prejuízo de quem impulsivamente desiste por preguiça ou intolerância à espera. Tal constatação me foi apresentada por um grupo de pombos. Há meses, a área da piscina do condomínio em que moro é ocupada por esses indesejáveis visitantes. Diante disso, a síndica decidiu isolar a escada que dá acesso à piscina, com um tecido verde, de forma a impossibilitar a farra dos pombos. Também diminuiu a altura da água para dificultar o processo de exploração pela borda. O grupo habitual de quatro pombos chegou na piscina e se deparou com a novidade. Três deles, mais parecidos comigo, sequer perderam tempo com a surpresa. Reconheceram o obstáculo e voaram para longe, provavelmente, procurando piscinas menos trabalhosas. Mas um deles, que, carinhosamente, nomeei Anselmo, decidiu persistir. Gastou um tempo observando a situação, rodeou a escada, perscrutou o tecido verde, tentou umas outras manobras demonstrando insegurança e cautela. Fez diversas incursões para resolver o problema, sem sucesso. Caminhou em torno da piscina como quem precisa organizar as ideias. Eu, do meu lado pensando: por que não desistes? Deve ter lugar mais fácil. Para minha surpresa, Anselmo se aproximou da piscina mais empinado, mais prosa. Voou até o corrimão da escada, foi deslizando de passinho em passinho até alcançar a água.
Nós, os humanos arrogantes, fomos golpeados pelo poder impiedoso daquele que não se curva a esse papo de destino. Não tivemos outra opção senão aplaudir Anselmo.
Agora, ele desfruta como rei do ambiente e é reverenciado por todos.
Os outros três pombos, desatentos e impulsivos como eu, seguem sem saber como entrar numa piscina com obstáculo.
A vida parece simples, mas não é. Meticulosa, se apresenta muito mais interessante aos curiosos e persistentes.



Maravilhosa reflexão!
ResponderExcluirQue baita crônica! Me identifico com o Anselmo.
ResponderExcluirAmei a historia. já fui uma pomba não-anselmo. Hj em dia, aprendi a persistir. Aliás, não ha nada que não se aprenda, desde que a insistência, a disposição e a paciência resistam.
ResponderExcluirBela crônica. Afinal, a persistência é o caminho para se conseguir os nossos objetivos.
ResponderExcluirMuito boa a crônica, parabéns pela crônica e classificação
ResponderExcluirMuito bom! Vamos aprender com o Anselmo.
ResponderExcluirEsse Anselmo desfruta de seu esforço e você, Soraya Jordão, certamente alcará voos incríveis com sua criatividade na escrita! Parabéns pela crônica de hoje!
ResponderExcluir👏👏👏👏👏 Parabéns!! Está ótima! Torço para que você seja como Anselmo. Vitoriosa
ResponderExcluirAh, agora quero ser uma Pomba-Anselmo. Há q sermos educadas para isso, diariamente. Realmente, tão fácil desistir...
ResponderExcluirMas a arte de desistir e procrastinar também tem sua beleza, né?
ResponderExcluirO que faço é maldizer a procrastinação. E procrastinar.
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