FIGUEIRA SECA >> Ana Raja
Descansou — de vez — a seiva coagulando em varizes,
que numa hora atendiam à má circulação,
noutra,
brotando as marcas impregnadas, saltavam da pele prestes a explodir de lassidão.
Morreu o corpo:
a
corcunda dominada pela escoliose que engoliu sua juventude.
A
solidão — de pirraça — não permitiu que seu tronco permanecesse ereto em sinal
de esperança.
Morreu
velha:
sem
ouvir um pio.
Ao
longo do tempo,
negou-se
a escutar qualquer alguém — caminhou sem dar as mãos.
No
quarto de um asilo qualquer:
plantada,
sozinha, morta de sentimentos secos.
Morreu o corpo velho.
Velho
de idade, de doença fatal para uma casca macróbia.
Ser
a última raiz não lhe açoitou com incômodo.
Morreu sem deixar frutos.
Morreu
o corpo velho do pai, da mãe, da irmã, do irmão —
só
faltava o seu.
Acabou.
Sem dor ou lucidez.
A
última árvore:
Inês.
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Ana, eu queria ter a sua força de escrever coisas tão doloridas e bonitas ao mesmo tempo. Parabéns de novo.
ResponderExcluirAna,
ResponderExcluirPalavras duras, mas com uma beleza poética. Que toca a alma e coração ❤️
Potência, poesia e realidade. Lindo!
ResponderExcluirLindo
ResponderExcluirLúcido e intenso, como o desaparecimento. Um primor!
ResponderExcluirQue comparação maravilhosa!
ResponderExcluirA figueira seca é um arquétipo bem conhecido, mas esse salto q vc fez, ficou espetacular
Enquanto eu lia, ficava imaginando uma pessoa-árvore, de pele cascuda. Sabe aquelas árvores secas, sozinhas, apodrecidas, que a gente vê na estrada qdo viaja? Pois é, muito triste pensar nisso, que existem pessoas que padecem assim.
Que texto!
Isso mesmo, a um tempo belo e dolorido!
ResponderExcluirCurto e grosso. Real. Mundo precisando disso. Parabéns!
ResponderExcluirPUUUUUT@ QU& P@R!U, Ana Raja, que petardo! Estilhaçou o vidro, entrou no aposento e espalhou cacos cortantes por todos os lados, atingindo da superficie ao âmago e deixando um gosto de sangue, tristeza, derrota e inexorabilidade. Carai...
ResponderExcluirAcabo de ler um assombro. André Ferrer aqui.
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