TERRITÓRIO, FRATERNIDADE E SANGUE >>> Ionio Paschoalin

 


Sou um fantasma, os poucos que perceberam minha presença, chamaram-me flutuante.

Tornei-me nômade, fugitivo desde o último até o início deste estio. É tempo demais para que um Guepardo fique sozinho. Não suportamos a solidão, no entanto lutamos contra ela e outros predadores maiores que nós, blefando e escapando. Somos parecidos com vocês.

Porém, cansei de fugir. Andei coberto pela grama alta, mas não posso mais suportar tal condição. Urino na terra, arranho uma das árvores e me exponho. Pronto! É o suficiente para atrair o enorme felino que se aproxima para me matar.

Não o conheço; é um Leopardo jovem. Observo o brilho dos seus olhos vidrados, seu ódio e seu desprezo. Odeia-me por servir-lhe de alimento. Facilmente me abaterá, carregará minha carcaça para a árvore mais próxima, como se eu fosse uma presa ordinária, e sentirá sua última sensação de êxtase. Eu o odeio por me trazer o alívio ao me lançar no abismo do éter.

Antes, outros da sua espécie, evitaram provocar desaforos contra mim e o único amigo que tive.

Meu nome é Nardis, meu irmão se chamava Sólar. Nasceu do ventre de outra mãe; o sangue que compartilhávamos tingia nossas bocas.

Lembro que era o filhote mais fraco da ninhada. Minha mãe nos abrigou no matagal espinhoso e, naquela manhã, dormi mais que os outros. Acordei assustado com os sons que ouvi: pios, uivos e gargalhadas macabras. Eu os via, mas o medo me paralisou qualquer atitude;

Minha família fora atacada pelos canídeos das risadas histéricas; que o Sol os amaldiçoe!  Meus irmãos foram mutilados e devorados ainda vivos. Minha mãe, ferida, urrava por clemência. Acho que isso engrandeceu a satisfação das hienas. Chegaram os Leões, os ruídos ganharam mais volume. Rugidos, berros e o som de patas em fuga; uma delas foi capturada e dilacerada. Os felinos amputaram cada pedaço de seu corpo de cão sarnento e a mascaram devagar. Estes formavam um grupo considerável: nada temiam, nem mesmo pareciam ter fome. A hiena, trêmula e retalhada, vociferava um riso de dor lancinante. Depois disso, não senti mais medo.

Minha mãe estava viva ou estava morta; só sei que partiu. Jamais soube seu nome. Era consciente de que não sentiria mais o gosto do seu leite quente e doce; tal sabor ficou nas memórias do meu palato, dentro da boca e do espírito. Busquei-o em cada coisa que assassinei; logo que mordia uma presa, sentia um rancor indescritível por não encontra-lo.

Quando saí do esconderijo, estava faminto e desolado. Avistei outro filhote; foi assim que conheci Sólar. Devia ter nascido quarenta ou sessenta sóis antes de mim pois seu pelo já amarelava e tatuagens negras começavam a se espalhar nele. Contei o acontecido, mas ele jamais mencionou as condições que o fizeram estar lá. Éramos dois órfãos e soubemos, assim em que nos vimos, que seríamos irmãos de sangue por coalizão. Tudo era eu e ele, meu e dele, pertencíamos um ao outro; no começo, tivemos que nos alimentar de insetos, minhocas ou, nos dias de sorte, sapos.

Nossa aproximação se deu pela necessidade de brincar; treinávamos os jogos de guerra; praticávamos as técnicas de captura, ensaiávamos coreografias para a dança da morte, tudo o que fugia era mais fraco; eles seriam perseguidos, nós os predaríamos; eles morreriam, nós os serraríamos com os dentes. A culpa pelas chacinas não vinha das lâminas em nossas gengivas; nasciam da fome, do ressentimento e da fúria de Plutão. Sempre fui o estrategista; Sólar era mais veloz, mais forte e sentia mais felicidade ao abater outros seres.

Enfim capturamos nossa primeira lebre. Sólar e ela corriam tanto que não os pude acompanhar. Sabia que ambos julgavam seguir em direção às montanhas, porém havia um rio que os barraria; do lado direito encontrariam os de maior porte, teriam que tornar à esquerda; me posicionei próximo a esse ponto e esperei. Acuei o pequeno mamífero e o abocanhei no pescoço.

Devoramo-la em instantes, depois lambemos um ao outro para sorver o resto do sangue em nossos mantos de pelo sobre pele. Esse ato sela a união e lealdade eterna entre dois da nossa espécie. Juntos, tomamos diversas outras existências cujos sabores sobreviveram em nossas línguas.

Logo dominamos aquele território; mas foi preciso dividi-lo com o matriarcado dos cães demônio, dos Panteras Leo errantes e dos Leopardos; iguais a esse que me encara. Havia abundância de Gazelas, Impalas, Aves, ovos e mais uma infinidade de outras carnes. As fêmeas vinham até nós para serem semeadas. Recebíamo-las com cortesia e respeito. Elas são solitárias e cuidam das crias, parindo-as, nutrindo-as e ensinando-as a predar. Depois da caça, tínhamos que comer sem demora. Abutres e Chacais apareciam para nos roubar. Matá-los, dava-nos mais prazer que alcançar os que nos serviam de sustento.

Após o período da abundância, veio uma seca que a tudo exterminou ou afugentou. Passamos fome. As poucas vidas que restaram foram disputadas por todos os que tinham apetite. Escutávamos uma manada de Gnus e uma tropa de Zebras a muitas galopadas adiante. Trotavam em nossa direção, mas teriam que cruzar os pântanos dos crocodilos. O estio se prolongava e tivemos que esperar mais. Percebemos a aproximação de uma mãe Guepardo e seus quatro filhotes; em breve lutariam para ocupar nosso território.

Eu falava com meu parceiro, ele não respondia. Olhava com fixação para os céus, sem nada dizer. Suponho que rezava por nós. Não poderíamos enfrentar o grupo que viria, fracos como estávamos. Sua fé acabou nos salvando. Ouvimos gemidos, percebemos menos passos que antes, caminhavam mais devagar. Provavelmente alguma moléstia apanhou o grupo, pois tombaram no caminho; só a genitora chegou, fraca e doente. Velha demais, contava ciclos suficientes para ser uma das nossas genetrizes. Quase senti saudade, quase me enterneci; consegui deter Sólar antes que a ira do diabo o contagiasse.

—Irmão, você sabe que esta pode ser uma das nossas...

—Bem sei! Mas suas doenças contaminarão nosso solo e nossas águas.

—Ataca-la terá o mesmo efeito. Busquemos outro lugar.

Saímos e não foi difícil chegarmos à conclusão de que nossa antiga morada, fora abandonada da vida. Passamos por terras de outros donos. Fomos cautelosos, vimos que essas também tinham chãos infectados e águas insalubres. Tínhamos sede, estávamos arrasados e teríamos que aprender tudo de novo. Rareava até a esperança da chegada dos bichos maiores. Seria difícil dominá-los de qualquer jeito.

Enfim! As Zebras que chegaram primeiro já bebiam do rio adiante. Nos nossos olhos chamuscava o fogo. Imediatamente as surpreendi; é preciso dispersá-las para identificar as mais fracas. Sólar disparou buscando um filhote que me pareceu muito forte. Amava demais meu irmão, mas ele foi insensato nessa escolha. O amor é insensato. A Zebrinha corria e coiceava com maestria, o corpo dele estava superaquecendo; acabou levando um golpe que o feriu gravemente. Corri e, quando estava a cinco Leões de distância, saltei sobre o dorso listrado e nele depositei meus dentes; as unhas que me ancoravam, rasgavam costelas e barriga; o filhote lutou, mas sucumbiu. Tivemos o mais saboroso banquete; No entanto, Sólar não estava bem. Perguntei como se sentia e ele respondeu-me: melhor agora do que nunca, e calou-se.

Sabia que ele nunca admitiria nem manifestaria a dor dos ferimentos. Repentinamente uma alcateia de hienas nos atacou e reclamou os restos da presa. Já havíamos comido mais do que cabia em nossas barrigas; escapei imaginando que ele vinha junto comigo, mas não se moveu. Ficou parado e mostrou às hienas seus dentes vermelhos. Ao retornar para completar a resistência, deparei-me com o jovem macho. Foi ele que nos farejou e avisou o grupo. Ele disse que eu seria sua recompensa, pois os farejadores só comem as sobras; têm a obrigação de esperar que as fêmeas e os machos do bando comam primeiro. Era um aprendiz, um capataz desprezível. Eu já tinha vida antes dele, sofri maldades inimagináveis para receber a benção do ódio e do rancor. Naquela situação, eu mastigaria até Lúcifer e lhe tomaria os infernos. Não sabia seu nome; na minha cabeça o chamei de nilton, o cleptoparasita humano que afirmou ter descoberto leis que sempre existiram.

O físico disse que se tornara grande por ter subido às costas dos gigantes. A verdade é que ele se alçou sobre uma pilha de cadáveres.

Entrei num matagal e nilton me perdeu; não poderia diferenciar o cheiro do mato do meu cheiro. Eu o surpreendi, cheguei pela retaguarda, e decepei sua cauda. Ele não podia entender os acontecimentos, não conhecia aquela dor. A humilhação e a hemorragia o confundiram. Quando virou para se defender, o golpeei com a pata esquerda, passando minha unha de orvalho sobre sua glabela e o ceguei. Com outra ganchada, desfigurei seu rosto e o transformei em uma caveira que gargalhava de desespero. Senti um prazer ainda maior que o da recente caçada. Saboreei sua angústia e, finalmente encontrei o gosto do leite da minha mãe perdida. Arranquei-lhe o focinho e, fincando-lhe os dentes, esfolei sua pele e a puxei para separá-la da carne. O fedorento não tinha meios para se opor. Deixei-o cru; conclui meu trabalho. Agora, sem poder farejar, nem poder mais nada, seria canibalizado pela própria milícia que um dia o acolheu. Estava enganado; uma velha Leoa o engoliu, ainda vivo. Rosnou em agradecimento e partiu.

Fui resgatar Sólar e, ao chegar no campo de batalha, não pude achar mais que ossos e tatuagens de sangue no solo. Nem o sangue nem os pequenos pedaços de ossos eram dele. Hienas comem tudo que podem e depois roem os ossos; não deixam vestígios, devoram-nos também.

O período de negação foi o mais penoso. Piei dias e noites o procurando, errei sem temer dentes mais poderosos, sem cuidado, sem descanso, sem vontade de alimentos; estava obcecado demais para doer; revistei os entornos até ficar exausto e desmaiar. Sonhei com um Guepardo gigante feito de fumaça. Olhou-me com ternura e disse: “filho, venha, te espero. Aqui não será machucado nem abandonado novamente. Receberás o amor que nunca provou. Devolverei também teu amigo. Ele está seguro comigo. Quando chegar, faremos uma festa”. Acordei e compreendi o destino do meu irmão. O Grande o chamou antes de me chamar.

Passei trinta sóis sem que nada passasse pela minha garganta. Foi assim que me converti em fantasma, mas ainda com a carne sobre os ossos. Percorri e durante o percurso, apanhei presentes que doarei ao Leopardo; está mais próximo agora. Ele me dará Sólar e a alegria de volta. Guardei para o predador, a cinomose que atacará seu sistema nervoso, enlouquecendo-o; a parvorvirose que o fará defecar o sangue que sorverá de mim, antes de deixá-lo desidratado; o calcivírus tomará a sua respiração. Não seria preciso transmitir-lhe a septicemia. Ela paralisará seu corpo e causará infecção generalizada, mas não furtarei ao ceifador tal gentileza. Ele prepara o bote. Espero com uma calma desconhecida; tem cheiro de céu.

O Leopardo, em seu curso errante, em busca reticente por sustento, encontrou apenas outro órfão. Eu encontrei a paz.

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