7% >> Carla Dias


Diante do computador, somente a luz da tela a ocupar o cômodo, aperta os olhos como se assim fosse possível enxergar melhor. Não é. Estica o braço sobre a escrivaninha, fisga os óculos número 2, lentes mais potentes, mas de armação tão desregulada que o leva a sofrer quedas a cada movimento. 

15% de bateria.

Chove a chuva de manter gentes em seus lugares. Calçadas transbordam impossibilidade de passeio. Postes aproveitam a folga nos braços da escuridão.  

Os fones de ouvido pedem substituição, como se fosse um jogador de futebol que entendeu ser a última oportunidade para o único gol de sua carreira. 

A xícara de café reclama de vazio; as cortinas abraçam o vento, enquanto a janela range a dificuldade de se fechar por inteiro.

Arrastando-se, as meias novas em sua primeira aventura no piso frio no qual se acomodam outros: sofá de pés fraturados; cabos elétricos misturados, feito fios de cabelos decididos a viver, eternamente, embaraçados; almofadas ansiosas por roupas novas para simular juventude inesgotável. Tapete desapegado da maciez do primeiro toque.

Esbraveja com as teclas do computador, maldiz a velocidade do tempo. Tenta se lembrar do que nem mesmo conheceu e, assim, inventa; reinventa-se.

A cadeira range, reagindo ao movimento do corpo a incitar coreografia de espreguiçamento. As portas rangem, aguçando a sensação de necessidade de saída, mas ela permanece.

Daqui a 7%, a música calará sua boca cheia de sons.

Daqui a 7%, a tela renunciará à sua luz. 

Então, ali permanecerá. Pensamentos a aliciarem.


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