OLHAR DE MENINO >> Sergio Geia
Há uma passagem em Futebol, seu mágico, Editora Letra Selvagem, 2026, em que conto uma história ocorrida em 1980, ano de estreia do Esporte Clube Taubaté na Primeira Divisão do Campeonato Paulista de Futebol.
Era um treino no Estádio Joaquim de Moraes Filho. Tio Adhemar me levou para assistir. No domingo seguinte, o Taubaté jogaria em casa contra o XV de Piracicaba, na abertura do campeonato.
O time tinha um zagueiro chamado Alfredo Mostarda. Era um jogador conhecido. Havia defendido o Palmeiras e a Seleção Brasileira. Nos treinamentos, sobretudo nas cobranças de escanteio, Alfredo subia mais alto que todos e quase sempre cabeceava em direção ao gol.
O Taubaté venceu aquela partida contra o XV de Piracicaba por dois a zero. Quando surgiu um escanteio para o Burro da Central, com o placar ainda em branco, virei para meu pai e disse:
— Olha o gol do Taubaté. Alfredo Mostarda. De cabeça.
A bola foi levantada na pequena área. Alfredo subiu e testou firme para o gol. Meu pai ficou encantado. Queria saber de onde eu tinha tirado aquilo.
Naquela estreia, outras coisas me chamaram a atenção. A rede verde das balizas, por exemplo. Estávamos acostumados às redes brancas, tanto no Joaquinzão, durante a campanha de 1979, quanto nos jogos das equipes grandes paulistas a que assistíamos pela televisão.
Havia ainda as placas de publicidade espalhadas ao redor do gramado. Já no primeiro jogo, eram muitas. A presença do Taubaté na Primeira Divisão atraía investimentos e dava ao estádio um ar diferente, quase de novidade.
Volta e meia me pergunto por que esses detalhes permaneceram guardados por tanto tempo. Afinal, em 1980, eu era apenas um menino de onze anos.
Outro dia encontrei uma resposta em Vista Cansada, crônica de Otto Lara Rezende publicada na Folha, em 23 de fevereiro de 1992. Aliás, eu adorava ler as crônicas do Otto na Folha. No último parágrafo, ele escreve algo que parece explicar aquelas lembranças:
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
Eu já intuía isso. Otto apenas encontrou as palavras que me faltavam.



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