LEMBRANÇAS >> KIU OLIVEIRA


 

Depois de deixar as chuteiras no lavador de roupas, corri para dentro de casa e só percebi os cacos de vidro, louça, cerâmica, resina e gesso ocupando toda a sala quando a dor veio à tona. Paralisado no meio da bagunça, olhei para as lascas espetadas em meus pés e, com as mãos sobre a boca, segurei o grito. 

Não era a primeira vez que eu via as lembranças da casa — que minha mãe fazia questão de exibir na estante — espatifadas no chão. No entanto, nas outras vezes, elas estavam em menor número, e menos danificadas. Tentei levantar o pé direito para retirar as farpas, mas desisti ao sentir o esquerdo sendo dilacerado.

Chamei por minha mãe uma, duas, muitas vezes, até ela surgir no corredor que ligava o quarto dela e de meu pai à sala. Sua roupa estava manchada de sangue e seus olhos lembravam um grito. Perguntou, com a voz entrecortada, por que eu não estava na aula de esportes. Falei que a professora liberou a turma mais cedo para acompanhar o velório da tia dela. Enquanto minha mãe atravessava o corredor, notei que, além dos cacos, havia flores de plástico, armações de quadros fotográficos, documentos manchados pelo tempo, tecidos bordados, talheres e roupas velhas espalhados pela sala.

Até me alcançar, caminhou descalça, como se não fosse atingida por aquilo tudo. Limpou o chão atrás de mim e me ajudou a sentar. Enquanto retirava os cacos dos meus pés, notei cicatrizes nos dela, além de alguns ferimentos. Quando tentei ajudá-la, seus olhos aguaram. Perguntei se aquelas marcas doíam. Ela engoliu em seco e sorriu ao dizer que só a machucavam se olhasse para elas por muito tempo. 

Depois de arrancar as farpas da minha carne, me carregou no colo até o corredor. Eu ouvia os estalos sob seus pés. Então, colocou-me no chão e mandou que eu esperasse ali. 

Voltou com um copo de suco de goiaba, gazes, álcool de hospital e um grande vidro de cola. Limpou meus ferimentos enquanto assoviava uma melodia nova, dessas que acordam a tristeza dentro da gente. Depois pediu que eu ficasse onde estava e foi cuidar da bagunça.

Catou a pedaceira e, com o auxílio da cola, reconstruiu as lembranças uma a uma: jarros, porta-retratos, pratos, copos, enfeites, anjos e santos. O reparo foi feito com tanto esmero que só dava para ver os remendos ao olhar bem de perto. A memória me ajudava a enxergar as pequenas fissuras em tudo. 

Na última peça, os pedaços não se completavam, algumas partes estavam esfareladas. Fui me arrastando pelo chão até o sofá onde minha mãe estava e ofereci ajuda. Ela me mostrou os bonequinhos de porcelana de mãos dadas e a noivinha sem a boca e sem os olhos. Ajudei a procurar o que faltava, em vão. 

Ela sempre reconstruía tudo o que meu pai deixava quebrado pela casa. Não ter conseguido, mexeu com um lado desconhecido dela, porque minha mãe gritou — os dentes à mostra, feito os de bicho feroz — para eu voltar logo para o corredor. Em seguida foi até o banheiro, deu várias descargas e saiu de lá sem o vidro de cola.

Os olhos em tempestade. 

Atirou todas as lembranças pela janela.

Comentários

Anônimo disse…
Conto emocionante!!!!
Anônimo disse…
Me fez lembrar da época que eu era criança... As coisas também eram quebradas 😥
Anônimo disse…
👏👏👏👏 mais um belo texto
Carla Dias disse…
Uma abordagem muito delicada e profunda da dor. Que texto bacana, Kiu!
Zoraya Cesar disse…
Kiu, vc, real e incontestavelmente, é um poeta da dor, das profundezas da alma, das cruzes do cotidiano, dos dilaceramentos que carregamos e ninguém vê. Que texto absolutamente irretocável.
Jander Minesso disse…
Que texto foda, Kiu. Gosto muito disso de você nos dar os fatos e deixar que a gente encontre os sentimentos por trás deles. Obrigado.
Albir disse…
Que dolorido, Kiu. A dor, a expectativa, suas pontas e cacos. Sem descanso.

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