O JOGO DA DESOBEDIÊNCIA >> ANDRÉ FERRER
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| IMAGEM: Gemini |
Citado no almoço, o rapaz era promissor para o homem uniformizado, o pai de Júlia.
Nivelou a gravata, fitou a esposa. Carlos, na concepção do casal, voava como um anjo e tinha um futuro brilhante, mas aquilo era parcial. Opinião de quem só via pelo ângulo da conveniência.
Carlos era um demônio e Júlia sabia disso.
A moça limpou o prato, girou o copo nos dedos e tomou o resto do suco de acerola quando já estava em pé.
— Hoje tem Inglês — disse a mãe.
— Vou me aprontar.
13h23min e nada de ônibus. (Tão atrasado quanto Carlos.) Júlia lamentava porque gostaria que o ônibus chegasse primeiro e ela fosse só para a aula de Inglês. Carlos era chato e cumpria o papel de capataz dos pais dela. Também era o primo mais velho da moça.
À distância, ela viu o rapaz e o seu jeito arrogante de andar. Uma pena, mas ele chegaria ao ponto antes do ônibus e exercitaria tudo o que os pais de Júlia deixaram de fazer no almoço por falta de argumentos contra ela. Sua mãe tinha lançado a bola de fogo, que Júlia rebatera contra um silencioso pai. Agora, ela ia para a aula de Inglês e carregava uma bronca usada pelo pai em substituição à falta de argumentos.
— O ônibus atrasou — disse Carlos ao chegar. — Ainda bem.
Júlia torceu o rosto.
— Ainda bem.
— Treinou o do, o does, o don’t e o doesn’t? Na aula passada, você errou tudo e a professora prometeu cobrar hoje. Foi mesmo a maior vergonha alheia que eu já senti, prima.
— Os meus pais também sentiram essa vergonha e me deram um sermão.
— É verdade?
— Ora! Você sabe que é — disse Júlia com a voz intensa. — Você conta tudo para eles.
A moça abraçou a sua pasta, girou o corpo e ficou de costas para Carlos, que riu. Quando ela ergueu a cabeça, avistou Eugênio do outro lado da rua. Ele atravessou.
— Que surpresa Ju! Estou com sorte.
— Okay. Mas não precisa exagerar.
— Como vai, Carlos? — disse Eugênio.
O primo subiu e desceu os ombros.
— Quero te convidar para o shopping e um cineminha — fez Eugênio para Júlia.
— Quando?
— Agora.
Chocada, a moça observou o primo, que já estava com os olhos e os ouvidos à postos.
— Como é? — perguntou Eugênio. — Vamos ou não vamos?
Júlia olhou na direção do ônibus e no rosto do primo. Carlos tinha um sorriso irônico na boca, por isso ela resolveu falar de games com Eugênio para ganhar tempo e decidir o que faria, aproveitando a fissura do rapaz pelos jogos, os escores e as novidades daquele universo. O shopping era tentador enquanto Carlos, o olheiro, punha tudo a perder.
— Você conseguiu avançar no The Sims?
— Odeio esse jogo — disse Eugênio. — Você sabe disso.
Júlia empalideceu. Queria ir ao shopping com ele, mas cometera aquela gafe! Como se já não tivesse problemas demais.
Precisava decidir. Tinha pouco tempo. Então, ela optou pela aula de Inglês porque estava com vergonha de Eugênio. The Sims, ora! Eu devia saber disso, pensou. De repente, ouviu-se o ronco de um motor.
— Filho da...
— Passou — disse Eugênio.
Atrasado, o motorista sequer reduziu a velocidade. O ônibus que levaria Júlia e Eugênio para a escola de Inglês desapareceu na próxima esquina quando faltavam 15 minutos para o início da aula.



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