JANELA DE VIDRO >> KIU OLIVEIRA
O que tem dentro de vó Aurita, além das tripas, do sangue, da doença, dos órgãos e da papa que ela come? É o que me pergunto todo sábado, quando a visito em seu quarto, no Lar Esperança. Peço aos cuidadores para nos deixar a sós. A equipe — de posse do termo de responsabilidade que assinei — não reluta, como acontecia nas primeiras visitas. Fico por conta e risco quando a porta se fecha.
Pela centésima vez, contarei a ela sobre o ocorrido com a minha mãe — o que dói sempre, mesmo eu repetindo a história. Então, tentarei atiçar uma memória nela. Espero que a lembrança não encalhe em algum ponto entre meu estômago e a minha garganta, como das outras vezes, porque, se isso acontecer, enfiarei todos os dedos na goela, até vomitar o assunto. Juro que o farei.
A porta está aberta. Uma cuidadora passa por mim e sussurra: hoje sua vó está mais distante que de costume, mas está calma. Fecha a porta ao sair.
Troco passos sem pressa, sem barulho. Vó está onde a encontro todas as vezes, diante da janela de vidro, com vista para um prédio abandonado com inúmeras janelas espelhadas, sempre fechadas. Ela toca na vidraça com as pontas dos dedos. Sem cortina, a luz do sol atravessa a matéria e clareia a sua pele, seus cabelos, todos os seus tons de cinza. Eu me aproximo o suficiente para sentir o cheiro de urina misturado ao de desodorante. Gosto da combinação.
Espero que note a minha presença.
O sol começa a se afastar da janela e ela insiste no vidro, os dedos incansáveis.
“Vó”, invado o silêncio dela, que não reage. Será que é assim que termina: tripas, órgãos, doença e silêncio?
Considero a possibilidade de ela ter chegado ao momento em que as lembranças e os sentimentos deixaram de existir. E talvez a palavra “vó” não viva mais dentro dela. Temo que seja tarde, e eu um tolo por não ter perguntado a tempo se ela se lembrava do que vô Raimundo fez de tão grave que a levou a fazer aquilo com ele.
Eu a abraço por trás e, com o queixo apoiado em seu ombro, encaro o vidro. Alguns segundos, e a observo tocar o próprio rosto no reflexo. Seu semblante transita entre o riso e o sofrimento. Meu abraço se torna mais forte. Ouço um suspiro. Com as mãos, seco suas lágrimas. Ela cola a testa no vidro. Encontra a si mesma.
É tarde. Lá fora, as luzes dos postes estão todas acesas. Ela se afasta da janela com o olhar inundado de despedida. Então, volta-se para mim. Seus olhos nos meus.
“Bença, vó.”
“Deus te abençoe”, a voz arrastada.
“A senhora quer descansar?”
“Faça o que veio fazer”, a voz firme.
Meu estômago se move. Travo.
“Sua mãe estava grávida...” Engole em seco.
Retorna para a janela. Meu peito em disparada.
“Vô Raimundo violentou minha mãe, vó?”
“Quem?”



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