MEIO-TERMO >>> NÁDIA COLDEBELLA


Um homem nem vivo nem morto olhou pela janela. 

Era um dia nem quente nem frio, nem seco nem chuvoso.

Lá fora, nem claro nem escuro. Lusco-fusco. 

Ele bocejou, embora não estivesse nem acordado nem dormindo, e o que viu lá fora não era sonho nem realidade. 

Ele andou em direção à porta da casa, mas permaneceu na soleira; não ficou nem aqui nem lá, nem dentro nem fora.

Poderia ter dado um passo e não teria sentido nem terra nem água sob os pés, nem céu sobre a cabeça.

Não ouviu nem som nem silêncio; não viu nem branco nem preto, nem luz nem escuro.

Se se lembrasse, não diria nem sim nem não. 

Se sentisse, não seria nem amor nem ódio.

Se a visse, nem amizade nem namoro, nem junto nem separado.

Melhor seguir nem conhecido nem estranho; melhor ignorar nem passado nem futuro.

Nem começo nem fim: nada o faria sair da soleira naquele momento. 

Nem verdades nem mentiras diziam muita coisa.

Ele prestou atenção e não se percebeu nem cheio nem vazio, nem culpado nem inocente, nem herói nem vilão.

Naquele momento, não tinha nada: nem presença nem ausência, nem liberdade nem prisão.

Nem ser quem era ele foi, nem ser quem seria ele será.

Ali, na soleira, só tinha mornidão.

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