A VERDADE DE TODA MENTIRA >>> Ionio Paschoalin
Acho que foi na semana passada.
Conversava com um amigo enquanto esperávamos a água escoar pelo filtro com pó
de café. Acabávamos de ouvir uma versão de Tom Sawyer, tocada ao vivo
pelo Rush, num show no Rio de Janeiro. Apesar de já ter escutado a música inúmeras
vezes, nunca tinha prestado tanta atenção à sua letra como nessa ocasião. Uma
ideia me ocorreu e eu disse a ele:
—Isso não está certo, nós
fomos longe demais, Zeca. E depois nos espalhamos como incêndio! Acho que foi
assim que nos separamos do tecido do universo; desalinhavamos as costuras que
nos uniam. O que adianta o que adianta, quando não adianta mais?
— Eu sei que está se referindo
à raça humana, te conheço bem, talvez se sinta culpado por ser gente; mas por
que está dizendo isso agora?
—Porque, num determinado
momento, desejamos agarrar mais do que nos cabia nas mãos; tentamos ser mais
que felizes; quisemos atingir o êxtase e viver nesse estado para sempre, de
forma que nenhuma dor ou angústia nos afetasse, já que sabíamos que não
venceríamos a morte.
— E o que mais poderíamos
querer? No começo, brigamos um pouco com a natureza até entendermos como fazer
parte dela, e nossa existência seguiu em harmonia com outras existências.
Depois percebemos que poderíamos dominar os acontecimentos, moldar os entornos
como bem quiséssemos e fazer com que tudo nos servisse. No entanto, não poderia
descrever agora a dinâmica da formação da hierarquia que determinou quem
executa qual função em nosso grupo. É obvio imaginar que os mais fortes e
corpulentos lutaram; os mais inteligentes calcularam estratégias; os
habilidosos manusearam e descobriram como preparar os alimentos que nos
sustentaram; os loucos tornaram- se sacerdotes, médicos ou artistas; os mais
carentes, ocuparam os cargos de liderança.
— Sim, mas e quanto ao desejo?
Não há como voltarmos no tempo em que a virtude da alma era o único bem que
deveríamos possuir e, como um cavalo que sabe o caminho por já o ter percorrido
tanto que o guardou dentro de si, nos conduziria a satisfação. Não ser muito
feliz nem infeliz; simplesmente cuidar dos nossos corpos e mentes, executarmos
nossas funções e nos alimentarmos, sem luxo, apenas do que é puro; não dizer
nem buscar nada, além da verdade. Mas nós mentimos!
— Todo mundo mente.
— Será?
— Já conheceu alguém que nunca
tenha mentido? Que só tenha falado a verdade, mesmo que com isso corresse o
risco de prejudicar a si ou toda sua comunidade?
— Não, nunca. Alguém já
conheceu?
— Lógico que não podemos falar
por todos; só relatamos o que supomos saber.
Contudo, parece-me antinatural
imaginar alguém que só tenha falado o que considerou ser verdadeiro.
— Se pessoas assim existissem,
provavelmente viveriam numa ilha onde a nossa entrada seria proibida. Não os
contaminaríamos com bravatas que, como uma peste, os influenciassem; e eu
passaria o resto da minha vida procurando esse lugar, mesmo correndo o risco de
ser alvejado pelas flechas de suas sentinelas.
— Caso houvesse um meio disso
acontecer, desejaria voltar aos tempos de Sócrates? Pois eu te digo que dentro
de uma caverna existe outra; e, no interior dessa, outra; e, dentro da última,
outra e outra. A ignorância perpétua de ser humano, não saber, procurar saber,
entender uma parte bem pequena do conhecimento e só usar o que é preciso,
imediatamente; mais nada. Ah, sim, já ia me esquecendo: e punir os que almejam
ir além disso.
Somos todos, bichos das
sombras, e nelas não moramos à toa. As luzes nos queimam primeiro e matam
depois. Quem sabe se foi esse o medo que nos afugentou da pureza e da verdade
socrática?
— Quando resolvemos fugir e
nos autoexilar dos princípios?
— Quando a busca pelos procedimentos honestos
acabou por matar o próprio sábio que a empreendeu, talvez. Não quero fazer
críticas muito duras, mas o mestre nunca compreendeu bem a compulsão
dos seres. Ela nos moveu, para o bem e para o mal.
— Concordo. Porém, durante
esse êxodo, passamos pelos caminhos do inferno e, deles, capturamos vícios;
como se misturássemos num recipiente as águas de dois copos diferentes: um com
água potável e outro com água poluída. O líquido insalubre suja o puro e isso
representa bem nosso comportamento. Uma vez corrompido, não se pode mais ser
incorruptível.
— Mas o que separa a mentira
da verdade? Quem ou qual grupo tem as credenciais para definir e distinguir os
territórios pertencentes a um ou outro?
— Não há como realizar essa tarefa! Como também
é impossível fazer a cisão entre o tempo em que vivemos na ignorância praticando
o mal e, depois de conscientizados, mudamos nossos comportamentos, passando a realizar
somente o bem. Os convertidos são manipulados a acreditar que isso lhes aconteceu,
e então eles renasceram, perdoados dos prejuízos que causaram. Considero tal
conclusão uma tolice. Uma caverna dentro de outra.
Mas todos nós, convertidos ou
não, fazemos a mesma coisa, sem nos dar conta. Temos um só oceano e o dividimos
em vários, dando a ele nomes diferentes, dependendo da região geográfica em que
se encontra. Transformamos um só mar, em mares.
— Bom, os mares pertencem aos
ingleses e a seus inimigos. Quanto à nossa natureza, não é possível mais
separar a inocência da malícia e tão pouco, verdade de mentira. Ambas são segregadas
a partir de julgamentos, seguidos de consensos. Porém jamais foi descoberto um método
que pudesse distinguir o bem do mal de forma eficaz. Mesmo assim, conservamos
aquela esperança a respeito do que perdemos.
— Qual?
— Aquilo que perdemos acabará
voltando, estará novamente conosco.
— Aquilo que perdemos acabará
voltando? Estará novamente conosco?
— Estará novamente conosco!
Acabará voltando, aquilo que perdemos.
— Sabe o que nos restou Zeca?
Rir! Rir de tudo, por qualquer motivo. Até que nossas bocas, sem mais nem
menos, junto com o resto dos nossos corpos, percam os movimentos, o propósito
e, logo, o sentido de distinguir o riso verdadeiro do falso.


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