CIRCO >> JANDER MINESSO

O diretor do circo se recusava a ouvir qualquer “não”. Tinha delírios faraônicos e ideias pouco brilhantes, mas era o diretor.

Certa vez, gastou os tubos num projeto nababesco. O espetáculo atual ia bem, mas ele queria mais. Foi quando teve o insight (gente assim tem insight) de aumentar toda a trupe. Em vez de cinco palhaços, cinquenta. Em vez de sete malabaristas, setecentos. Ainda ficou pistola porque não encontraram os dois mil leões que ele queria que fossem chicoteados por dois mil domadores.

— Vocês não entregam nada do que eu peço.

Demitiu metade do quadro de funcionários naquele dia. Depois recontratou, porque um projeto desse tamanho pedia uma equipe tão grande quanto. Para a estreia do novo número, mandou construir um picadeiro cem vezes maior, com uma bela lona listrada de verde e branco. Na primeira noite, vendeu nove ingressos. Na segunda, quatro. No fim da primeira semana, tinha mais gente assistindo à Rede Canção Nova do que ao show dele.

Não se deu por vencido. Redemitiu a equipe e contratou um time novo. Montou o mesmo espetáculo, dessa vez com uma lona roxa e branca. Mandou divulgar o show pela cidade toda: panfletos, carro de som, anúncio pago no Instagram, o pacote completo. O Grande Enorme Circo da Tenda Roxa e Branca vinha aí, e o bicho iria pegar. Por azar, a final do Brasileirão aconteceu no mesmo dia da apresentação inaugural. Ninguém apareceu.

Dada a estranha lógica do entretenimento, os investidores seguiram colocando dinheiro no circo. O homem continuou lá, dirigindo seu espetáculo para ninguém e gerando o maior turnover da história circense. Queria criar o show definitivo, o Um Anel do entretenimento, a performance para a todos emocionar. Não desistiria enquanto não conseguisse e enquanto não o fizesse sozinho, porque fora talhado para a tarefa. Era seu destino. Apesar desse tino para o sobre-humano, todo dia, logo depois do almoço, cagava uma merda dura e seca, parida com grande esforço.

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