JÁ VI ESSE FILME - A segunda aventura do Detetive sem Nome >> Zoraya Cesar
A noite fora quente como uma fornalha do inferno. Os diabos estavam soltos e animados. Alguns tentaram esquentar meu couro, mas mandei-os de volta para o tártaro. Não estava a fim de conversa. Nunca estou a fim de conversa.
Cheguei ao
meu apartamento, peguei um saco de gelo para botar nos machucados e tomei um
analgésico. Preciso parar de ser tão reativo. Com a idade a aparência custa a
voltar ao normal e eu não posso visitar clientes com a cara toda amassada. Não
pega bem.
Por mais cínico que eu tenha me tornado após esses anos de profissão, às vezes ainda me surpreendo com a imbecilidade de certos tipos. Creio que alguns simplesmente pedem para ser enganados. Depois me contratam para consertar o erro. Pra mim, quanto mais idiotas, melhor.
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Vejam esse
meu novo cliente, Dr. Tarcísio dum Fruklost. Empresário rico, família
tradicional, viúvo, todos os filhos espalhados pelo mundo, gastando o dinheiro
que seus antepassados suaram muito para conquistar. Cansado da solidão, o velho
decidiu casar de novo, aproveitar as delícias permissivas do matrimônio antes
que D. Morte o tomasse por esposo. Poderia ter escolhido alguém de seu nível
social. Uma dama. Ou uma mulher mais madura, mais compreensiva quanto às suas
limitações sexuais. Mas não. O velho sátiro resolvera casar com uma mulher
quase 50 anos mais nova, apresentada por um 'amigo'. Folhetim brega e batido.
As pessoas não aprendem. Pois, claro, depois de alguns meses, boatos surgiram
questionando a fidelidade da jovem esposa. Dr. Tarcísio calou os boateiros
mediante algumas ameaças, algumas pressões, algumas chantagens. Mas o veneno
fora instilado. E ele me contratou.
Meu
contratante era ainda forte. Tinha as espáduas largas de quem passara a vida
nadando contra a corrente, a postura ereta dos que estão acostumados a mandar.
Os olhos fulguravam com o brilho característico dos homens que sabem lidar com
a malícia do mundo – e se servem dela muito bem. O tempo, no entanto,
enfraquece até os leões mais resistentes. E a fera perde a força de ataque, o
instinto matador e, pior, seu lugar de macho alfa. A única maneira que vira
para tentar frear, ou, ao menos, diminuir a marcha célere ladeira abaixo, fora
casando com uma mulher capaz de fazer os outros homens virarem os olhos, as
entranhas – e muitos, como ele próprio, também a cabeça.
Ele começou
a mostrar fotos e vídeos. Quase soltei um palavrão. A mulher era uma enviada do
demo. O próprio Asmodeus deve tê-la expulsado dos infernos a fim de que ela não
o destronasse e dominasse os outros diabos. Confesso que, até então, pensei
tratar-se de uma piranha vulgar. Dessas coitadas que encontramos em bares bem
depois das altas horas, experts em saber escutar e fingir que
o maior desejo de suas vidas miseráveis é abrir as pernas para que homens
encharcados de bebida e desolação encontrem um pouco de calor humano. Eu sei.
Já fui um desses homens.
Mas ela! Ela estava longe disso. Laura era seu nome e, mesmo vista na tela, sua presença era tão magnética que quase pude sentir seu perfume. Uma mistura de dama da noite com
tabaco. Era cheia de curvas, todas sensuais, seios que saltavam da roupa, pura luxúria. E tinha classe. Movimentos comedidos, sorriso discreto e olhos profundos. Senti um arrepio. Aqueles olhos pareciam penetrar em você e dominar sua mente. Os cabelos castanhos, longos e ondulados emolduravam um rosto branco leite, que meu deu vontade de beber e...contive-me. Mais um pouco e eu estaria babando na frente do marido. Percebi o fascínio que ela exercia sobre os homens. Dr. Tarcísio, por experiente que fosse, não era páreo para ela. Ninguém era.
- Não quero
escândalos nem provas de adultério para fins de divórcio. Quero apenas que
Laura se sinta constrangida a não me trair por aí. É muito humilhante para um
homem como eu. Estou velho, mas ainda tenho algum poder. E há quem possa usar
as escapadelas de minha esposa contra mim. O senhor entende?
Sim, pensei,
entendo muito bem. O pobre diabo estava viciado nela, como o enfisematoso ao
seu tubo de oxigênio, o drogadicto à sua injeção de heroína E o desgosto de ser
passado para trás, de ser visto como um corno manso no final da vida, eu também
entendia. Quem foi rei não gosta de perder a majestade. Por isso eu jamais quis
ser o fodão. Ninguém quer competir comigo para pegar o meu lugar. Nos westerns,
sempre tem um novato idiota disposto a desafiar o pistoleiro lendário para
provar que sacava mais rápido. Assim também na vida. Daí que escolhi andar
pelas sombras. Você lida com gente mais perigosa. Mas se acender a luz todo
mundo foge.
Dr. Tarcísio
podia ser o maioral pra sua gente, os grandalhões do mercado, das finanças, do
que fosse. Mas, para o comum dos mortais, não passava de um paspalho. Qualquer
marciano lhe diria que uma mulher fogosa daquelas não se conformaria com sexo
mixa nem seria constrangida a coisa alguma. Essa tentativa canhestra de manter
a dignidade fazendo-a perceber que estava sendo seguida e impedi-la de dar o
corpo para quem quisesse era risível. Dr. Tarcísio era digno de pena. Como não
tenho pena de ninguém, cobrei um valor bem mais alto do que costumo cobrar para
esse tipo de serviço. “Taxa otário”, como chamo.
Passei num bar de nenhuma categoria, tomei duas doses de um uísque que deve ter sido batizado com água de privada, e fui andando para casa.
Ao chegar, parei, peguei minha Heckler & Koch USP e empurrei a porta, tão delicadamente quanto meu estado etílico permitia - a porta entreaberta que eu deixara trancada ao sair.
O perfume
de dama da noite com tabaco chegou aos meus sentidos antes mesmo de eu entrar.
Acendi a luz. Lá estava ela, sentada no meu sofá como se tivesse feito isso a
vida inteira. Sentada não. Lânguida e sensualmente recostada, olhando-me de
soslaio, o cigarro nas mãos.
- Se vai
apontar a arma – ela ronronou, como uma onça ao vislumbrar a caça – é melhor
atirar.
Meu coração
tentava saltar pela boca e cair nos braços dela. Engoli saliva diversas vezes,
até colocá-lo de volta no meu peito. Então era esse o jogo. A pequena demônia
fora mais esperta. Em vez de o detetive segui-la, ela seguiria o detetive.
Seduzindo-me, poderia continuar a trair o marido sem ser perturbada. Ele ficaria sossegado. Eu ganharia meu dinheiro. E mais que isso.
Aquela
mulher exercia uma atração animal estonteante. Exalava feromônio até pelos
cabelos. Cada movimento seu era naturalmente sedutor. Guardei a arma; não era
de um revólver o que eu precisava, mas de cabeça fria. Já vira esse filme. O
herói se dá mal. Ela me usaria, aniquilaria com a minha autoestima, pisaria em
todos os meus escrúpulos, me reduziria a um escravo de suas vontades, um
viciado em seu corpo, rastejando para que ela me desse um olhar que fosse.
Laura poderia transformar o mais espartano dos homens em um estulto lastimável.
Já vi esse filme.
Ela bateu as cinzas do cigarro na própria mão e soprou-as em minha direção. Amigos, aprendam: nenhuma mulher é tão perigosa quanto aquela que coloca dor e prazer no mesmo pote. A experiência me ensinou que, mais importante que saber usar uma arma, era conhecer a natureza humana. Isso podia ser a diferença entre a vida e a morte.
Gosto do que faço. É o que sei fazer melhor. Não suporto patrões, horários rígidos, rotina. Meu trabalho é cansativo; muitas vezes, arriscado; nem sempre paga o suficiente. Gosto também de testar meus limites. Correr riscos. Desafiar o abismo. Talvez, dessa vez, eu conseguisse mudar o final do filme.
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Essa foi a segunda aventura do Detetive, ou Profissional, sem Nome, publicada em outubro 2018. Devo dizer que ele evoluiu muito ao longo dos anos, até a arma que ele usa hoje é diferente. Não bebe mais uísque barato. Mas ainda é chegado a mulheres e bebidas. Seu estilo é sempre noir, hard boiled. Ele foi se desenvolvendo e ficando mais complexo. Abaixo, a sequência das histórias. Ah, por que nao republiquei a primeira? Porque ela está passando por atualizações. Mas vocês podem lê-la abaixo (lê-la fica feio demais, né?)
Outras aventuras do profissional sem nome
Foto Heckler
& Koch USP (universal self-loading pistol)
lifesizepotato, CC0, via Wikimedia Commons
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:First-year_H%26K_USP_9mm_%2832415150000%29_modified.png


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Comentários
O contratante mandou seguir a esposa, mas isso nem foi necessário, porque foi ela quem apareceu na casa do profissional (curiosamente, coisas assim nunca acontecem comigo - pelo jeito, o roteirista da minha vida só lia Turma da Mônica).
O contratante também queria que a esposa parasse de traí-lo em público, então o profissional tratou de providenciar traições discretas.
Um cara desses vale cada centavo do contrato, não?