TER OU NÃO TER? >> JANDER MINESSO

 

Um dos meus passatempos favoritos são os jogos de tabuleiro. Inclusive, tenho uma coleção com dez deles.

Se eu tivesse meia dúzia já seria o bastante. Era bem isso que passava pela minha mente enquanto aproveitava uma pausa no trabalho para navegar por um site de ofertas. Procura daqui, clica dali, encontrei um jogo por um preço razoável e que me pareceu interessante. Nele, somos arqueólogos e temos que nos dividir entre pesquisas acadêmicas sobre civilizações antigas e escavações em sítios arqueológicos. O objetivo? Buscar relíquias dessas civilizações para fazer mais pontos que os adversários.

Conforme frisei antes, ninguém que tem vinte jogos precisa de mais um. Então, fechei a janela do navegador e voltei ao trabalho. Mas um eloquente Indiana Jones dentro de mim resolveu questionar essa decisão. Ele insistia que poucas coisas seriam mais legais do que encontrar um tomo ancestral numa biblioteca em Roma que me levaria a descobertas únicas enterradas nos arredores de Luxor. Enquanto ele defendia seu ponto de vista, levei o dobro de tempo para revisar um material e ainda me atrasei para uma reunião.

Como trabalho até tarde, lá pela hora do jantar resolvi dar mais uma pesquisada no assunto. “É um jogo muito temático, mas aleatório demais.” “Não importa o que você faça, no final tudo se resume à sorte.” “Terrível. Comprei, me arrependi e vendi uma semana depois.” Diante de tantos argumentos sólidos, a voz da razão falou mais alto que meu loquaz aventureiro interior.

Decidido, voltei para minha sala, entreguei o que estava pendente e me despedi do pessoal. Depois, segui para o carro com a paz que só os resolutos têm. Dei a partida no motor, abri o Waze e, sem titubear, coloquei o endereço de casa. Coloquei também uma parada intermediária na minha loja de jogos preferida que, por coincidência, fica aberta até tarde. Quem tem trinta, tem trinta e um.

No caminho, decidi ouvir um podcast onde quatro especialistas debatiam quão divertido era o tal jogo. Para a minha decepção, não houve consenso: dois amaram e dois detestaram o dito cujo. Era a gota d’água. Farto de tanta indecisão, cancelei a parada intermediária e ajustei as velas rumo ao lar.

Quinhentos metros adiante, parei no acostamento e coloquei a loja como destino outra vez.

Se eu quero e posso, por que não fazê-lo? Concordam? Era fim do mês e tinha sobrado algum, então um mimo viria bem a calhar. Acho até merecido depois de trinta dias de labuta quase ininterrupta, cuidando de dois projetos e com mais alguns em desenvolvimento. Já me imaginava em casa, tabuleiro aberto, jogando com a esposa enquanto curtíamos um café com bolinho numa tarde preguiçosa. Inclusive, essa era a cena exata na minha cabeça quando estacionei na frente da loja, às dez e quarenta e três da noite.

Lá dentro, só o dono. Entrei pensando em assobiar, mas pareceria um excesso de casualidade, então fiquei quieto, olhando para o chão enquanto chegava o mais perto possível da parede, torcendo para não ser notado. Quase um ninja.

— Boa noite. Tudo bem?

Vocês não imaginam a dificuldade de passar despercebido numa loja vazia à noite. Cumprimentei o homem atrás do balcão e me pus a olhar as prateleiras repletas de caixas de todos os tipos: grandes, pequenas, quadradas, retangulares, de papelão, de metal. Os tabuleiros são um universo quase infinito. Mesmo assim, não demorou para que eu encontrasse o jogo. Estava ali, numa esquina da estante, quase abandonado. A cena parecia até injusta. Tomado por um senso de empatia, peguei aquele trambolho de papelão nas mãos. Senti o peso. Dei as costas ao vendedor para que ele não percebesse minha tentativa de cheirar a caixa na esperança de sentir as notas cartonadas do papel. O aroma celulósico — se é que tal adjetivo existe — foi a pá de cal.

— Quanto custa esse aqui?

Era o preço que havia visto no site. Uma eternidade de diversão por menos que um cinema para dois sem pipoca. Imaginei partidas com minha cara-metade, com amigos, com desconhecidos na rua. Aquele jogo traria paz ao mundo. Burrice seria não comprar. Só que quarenta outros jogos me esperavam em casa. Mais um parecia exagero.

— Vou pensar um pouco e de repente eu volto outro dia.

Retornei para o carro com algo agridoce na garganta. Entretanto, ao engatar a primeira marcha, já estava satisfeito com a minha decisão. Se fosse mesmo para fazer essa compra, o Universo teria me enviado sinais. Por ironia, o caminho de volta levou três vezes o tempo normal. Passei por duas avenidas em obras, errei a saída de um túnel e ainda encontrei uma barricada no quarteirão de casa que me obrigou a fazer um desvio de três quadras. Cuidado com o que você pede.

Por via das dúvidas, hoje eu acordei e encomendei o jogo em outra loja. O quinquagésimo da coleção chega semana que vem.

Para ler outros textos do autor, clique aqui.
Imagem: acervo pessoal

Comentários

Postagens mais visitadas