A CIÊNCIA NÃO EXPLICA O BOLSONARISMO E ISSO TE INCOMODA >> ALLYNE FIORENTINO




Sabe aquela cobertinha que você usava quando era bebê? Aquela que você arrastava pela casa, tratava com todo carinho, cheirava enquanto tomava sua mamadeira, depois abraçava e deixava pertinho do rosto enquanto dormia?

Esse objeto-emocional feito de fibras, talvez daquelas descosturadas do cordão umbilical que jamais teremos de volta. Esse pedaço de pano, talvez tecido por Penélope, tentando cobrir os buracos que vão se formando em nosso corpo à medida que descobrimos nossa tão profunda e existencial solidão. Coisa de criança, diriam.

Mas a gente cresce e continua carregando pra cima e pra baixo nossos objetos emocionais... várias cobertinhas, de variados tipos para variadas ocasiões. A Ciência vez ou outra costuma ser essa cobertinha. Qualquer anomalia no “projeto ser humano” e lá estamos nós, buscando nas pesquisas e nos dados científicos uma explicação para acalmar nossa mente e nosso coração.

Como quando você acha tão, mas tão fofo um bebezinho que dá vontade até de mordê-lo, apertá-lo, feri-lo...  Mas a Ciência tem explicação pra essa barbárie. Nosso cérebro não aguenta tanto estímulo positivo, então quando chega ao auge, ele emite um estímulo negativo que impede que o cérebro se sobrecarregue.  

Mas tem coisa que não pode ser explicada, nem tudo é sobre “saber”. Você pode mostrar a um ser humano o sofrimento do outro, mas não pode fazer com que sinta empatia. Você pode sonhar com um mundo igualitário, mas não pode domar o egoísmo do outro. Você pode mostrar a dor física a uma pessoa, mas não pode arrancar dela o desejo sórdido de ferir os outros. A Ciência não explica o egoísmo, nem a falta de empatia, nem a falta de sentimento, nem a crueldade humana. E isso é frustrante, eu sei. Você, no final das contas pensa: como podem existir pessoas assim no mundo?  Mas se não existissem, como eu poderia saber, ao contrário, o que é empatia, altruísmo, compaixão, afeto, amor...

Tudo é equilíbrio, por isso, às vezes, somos nós mesmos que fazemos esse papel de cobertinha pra humanidade, tecendo, como Penélopes, muitas cobertinhas que tapam verdadeiros abismos sombrios nas almas das pessoas... Sem elas nem desconfiarem...

E continuamos tecendo e destecendo, esperando, pacientemente, o dia em que ninguém mais precisará de uma cobertinha.

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Imagem gerada por IA.

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