VITÓRIO MARRENTO >>> Ionio Paschoalin
Ele sobreviveu a tudo que tentou
aniquilá-lo. Durante a gestação sofreu duas tentativas de aborto. Mesmo assim,
nasceu aos sete meses. Cortaram o seu cordão umbilical e o levaram
imediatamente para a incubadora, onde se desenvolveu fora do ventre materno.
Antes do parto, a mãe já havia solicitado que o enviassem
ao serviço tutelar, pois não teria condições de criá-lo.
Enquanto ganhava peso na UTI, a
equipe do hospital e os assistentes sociais do judiciário, organizaram sua
entrega a um abrigo para órfãos. Morou lá com mais dez crianças. Após dezoito
meses, a equipe técnica tentou reintegrá-lo à sua família de origem; uma avó já
idosa e uma tia, mãe de sete filhos e nenhum pai. Ambas não o acolheram;
faltava-lhes tudo e não teriam condições de criar o pequeno. A favela em que
moravam era cortada por um córrego, onde os dejetos do entorno eram despejados.
Todos os barracos tinham muitas bocas para alimentar; bocas onde sobravam
poucos dentes e muita fome. Porém, o número de ratos era maior que o de gente.
O menino teria que continuar no abrigo.
Com oito meses de vida quase foi
adotado por um casal; o homem já estava arrependido quando saíram do
abrigo. Ele, o menino e a mulher entraram no carro e só não demonstrou sua insatisfação para não contrariar a esposa, que tinha o sonho de ser mãe, mas não
podia engravidar. Com duas semanas, durante o estágio de convivência, a mulher
foi perdendo o interesse. Teria que abrir mão da carreira promissora e fazer
sacrifícios por uma criança que sequer foi gerada por ela. Percebendo que o
interesse dela diminuía, o marido deu-lhe o ultimato: “ou ele, ou eu”. O
garoto foi levado de volta à instituição de acolhimento. A maioria dos
funcionários dava às crianças, a atenção que podiam. Atendiam a todas com os
parcos recursos que recebiam do governo; muitas vezes compravam cobertores e
materiais higiênicos com dinheiro do próprio bolso. Alguns eram residentes,
outros alternavam-se em turnos. Alguns eram humanos, outros tratavam os
internos com tapas e beliscões.
Dois meses antes de sua
aposentadoria, uma cuidadora o tomou nos braços e enxergou dentro dos
olhos do bebê: “Esse garoto vai se chamar Vitório; ele é forte e será um
vencedor. Deus o abençoe, Vitório!”. Beijou o menino e o banhou; depois nunca
mais se viram. Vitório viveu despercebido até os sete anos, falava pouco e era
arredio a carinhos; tinha dificuldade de se relacionar com o grupo. Sem festas
de Natal, sem presentes de aniversário. Ninguém tinha criado uma data para pessoas como ele.
Foi matriculado numa escola
pública. Sofria abusos e humilhações, maltratado pelos garotos mais velhos que
batiam nele diariamente, enquanto outros zombavam de suas roupas rotas, da sua
feiura, de sua aparência franzina, da falta de alguém que o protegesse, das
suas dificuldades no aprendizado. Logo foi apelidado de “Trapo”. Notava que
alguns pais levavam e buscavam os filhos na escola, mas sabia que isso era um
luxo que ele jamais conheceria.
Após completar onze anos,
apaixonou-se por uma menina da sua sala. Um grandalhão, o Alfredo, exercia
liderança sobre os demais e Vitório era seu alvo diário. Alfredo fez uma graça
com a garota, que não gostou da brincadeira. Ele ameaçou dar-lhe um tapa após
segurá-la à força. O órfão sentiu um ódio que a partir dali deu sentido e
propósito à sua vida. Apanhou o compasso de um colega e enfiou a agulha no
ouvido direito do grandalhão perfurando seu tímpano, pegou uma cadeira e bateu
nele repetidas vezes até quebrá-la. Teve que ser agarrado e detido pelos
monitores. Todos reprovaram a atitude de Vitório e os pais dos alunos se
mobilizaram exigindo providências do diretor que o encaminhou ao conselho
tutelar; o transferiram para outra escola. Em sua ficha de matrícula estava
escrito “histórico de violência”; viveu assim durante quatro meses.
Acordou decidido naquele dia.
Esperou o horário da escola para fugir, não toleraria mais que muros o
separassem do mundo. Viveu nas ruas. De dia, o sol lhe queimava a cara. De
noite dormia em alerta, cobertos por jornais e sacos plásticos. Quando não
vinha o sono, olhava para o céu e conversava com as estrelas. Na sua cabecinha
de criança, acreditava que podia ouvi-las. Sentia frio e fome; procurava nos
lixos, as sobras de comida. Ao caminhar perto de uma grande escola particular,
viu quatro garotos maiores e se aproximou:
— Desculpem o incômodo. Faz dias
que não como nada; será que vocês poderiam me dar umas moedas ou um resto de
lanche?
— Saia daqui vagabundo! A ração
para cachorro está em casa. Aqui não tem nada para você.
As palavras moveram o pobre;
sentiu-se insultado. Subiu nas costas do falador e travou as pernas contra o
pescoço do riquinho, esganando-o. Com os punhos fechados, bateu sem parar, até
ele desmaiar. Os amigos gritavam por ajuda e Vitório correu até a próxima
esquina, mas foi barrado por um homem grandalhão, careca, de orelhas comidas,
nariz quebrado e o rosto coberto por cicatrizes. Ele presenciou a situação e
deu um tapa na cara do fugitivo:
— Você gosta de brigar, né?
Reparou que o garoto não esboçou
reação ou medo. Desferiu um soco na cara de Vitório que quebrou seu nariz, reconstruindo sua fisionomia. Ele não chorou e não fugiu, mirou fixamente o
velho com uma fúria que fazia seus olhos acenderem labaredas e suas pupilas dilatarem-se como buracos negros.
— Eu vou crescer e prometo que,
um dia, vou te bater tanto que não vai mais se reconhecer. Vai ficar ainda mais
feio do que é.
— Há, há! Acho que gostei de
você, pirralho. Sou o mestre Montanha. Qual é seu nome?
— Que importância isso tem? Você
vai me adotar por acaso, velho escroto?
— Já que perguntou, vou sim!
Estava procurando alguém como você. Não me interessa como se chamava até agora;
eu te batizo como “Marrento”. Você estuda? Está na escola?
— O que você acha, seu imbecil? Eu
não tenho casa nem pais; só tenho as ruas.
— Poético, mas meu negócio não é
poesia. Você gosta de luta, então vou te ensinar a lutar. Se fizer tudo o que
eu mandar, pode dormir na minha academia. Não é grande coisa, está velha,
precisa de pintura, está cheia de infiltrações e vazamentos, mas não tenho grana para
arrumá-la agora. Pelo menos não vai dormir na rua, vai ter um lugar para tomar
um banho e alguma coisa para comer. Já te aviso: eu não tenho dó de você,
nunca vou te dar carinho, nunca vou te amar e ninguém vai.
— Eu sei...
— Mas vai aprender a se defender
com técnica e disciplina. Antes disso temos que resolver a sua situação legal.
Vou te levar de volta ao abrigo e ver o que posso fazer.
— Então, você vai mesmo...
— Cala a boca! Primeira lição,
você fala só quando eu mandar. Entrarei com processo de adoção e quanto te
liberarem, vai trabalhar na minha academia. Vai ter saudades do teu orfanato,
porque vai fazer faxina, limpar banheiros, organizar a bagunça, deixar tudo
brilhando e muito mais. Vou te ensinar a ser homem e você vai ensinar o chão a
ser limpo. Só não admito trabalho malfeito, senão posso não ser uma pessoa tão
agradável como estou sendo agora.
O garoto concordou; odiou e amou
o mestre ao mesmo tempo. Pela primeira vez, alguém reparou a sua existência. O
brutamontes continuou:
— E vai voltar para a escola; se
tirar nota menor que nove, eu prometo que vai apanhar tanto, que não vai sobrar
nada de você.
Montanha era um veterano, ex
lutador da UFC, especialista de Muay Thay e Jiu Jitsu. Amargava a derrota que o
fez se aposentar. Disputou o título dos pesos pesados e perdeu por pontos. Todos
consideraram injusta a decisão dos jurados e o mestre resolveu não participar
mais da Liga profissional, apesar do apelo dos técnicos e colegas. Montanha era
cabeça dura. Abriu a humilde academia que gerenciava com dificuldades, poucos
alunos e muitas contas. Além dele, havia dois professores, velhos amigos de tatame:
o Santo, exímio lutador de Wrestling, evangélico fervoroso e companheiro nos
momentos mais difíceis e o Exú, um dos melhores lutadores de box que conheceu,
o piadista do grupo. Nenhum deles era casado e tornaram-se inseparáveis.
O treinador enfrentou a
burocracia da guarda provisória com a ajuda do doutor Cappi, advogado e fã do
mestre. Quando finalmente conseguiu a guarda, mostrou ao aprendiz o roteiro da
sua rotina: Cinco horas, café da manhã, cinco e trinta, corrida matinal,
lavagem dos tatames e limpeza do local. Oito horas, escola. Treze horas, almoço.
Quatorze, treino de Jiu Jitsu, com foco no controle, submissão e paciência.
Dezesseis, treino de Muay Thay e Box. Dezoito, Wrestling. Vinte horas, jantar
com Montanha, lições de casa e cama. Duas vezes por semana frequentava o
psicólogo, geralmente era levado por Santo, que aproveitava o convívio para
pregar a palavra de Deus:
— Você é um bom menino Vitório,
um presente do Senhor. Eu sei que vai ser um campeão! Jamais esqueça que Jesus
te ama. Eu, Exú e Montanha gostamos muito de você. O Monta não vai te dizer
isso, mas já falou para a gente, “Esse moleque vai chegar aonde nós nunca
chegamos".
O garoto permanecia em silêncio,
mas nutria carinho pelos técnicos. Adaptou-se à rigidez dos treinos com uma
facilidade que deixou o veterano surpreso. Os outros dois amigos sempre
souberam que Vitório, agora conhecido como Marrento, seria grande. Aos quatorze
anos já se considerava um ex órfão. Agora tinha uma família e a sensação era
tão boa, que não conseguia descrevê-la. No entanto sentia falta de figuras femininas
em sua vida e conversava com as garotas que treinavam na academia, mas era
tímido demais para convidá-las para sair. Quando tinha tempo livre, acessava
sites de conteúdo adulto. Num desses dias, assustou-se com as batidas fortes na
porta do quarto. Era o professor de Box:
— Ô Marrento, apressa o passo com
as suas atividades autoeróticas, temos que treinar seu gancho. Se continuar
assim, suas mãos vão ficar com formato de gancho.
— Mestre Exú, vou cantar um ponto
pra você subir e largar do meu pé.
— Se você cantar eu vou batucar e
a gente não vai treinar; bora, fecha o zíper e lava essas mãos, pelo amor de
Deus. Deram boas risadas e depois praticaram por mais tempo que o habitual.
Os treinos com Montanha eram os
mais duros, ele exigia autocontrole e intensidade máxima; não fazia elogios. Os
exercícios eram praticados à exaustão, “Você fará bem tudo o que repetir mil
vezes”, dizia o velho. Usava como sparings os alunos da academia. A maioria
tinha medo, perderam quatro matrículas por causa disso. Mas tinha o Tonho, adolescente
tranquilo e bem-humorado, que adorava o Marrento e se inspirava nele. Oferecia
ajuda e costumava assistir o amigo nos treinos de sombra em frente ao
espelho. Os clinchs eram executados com Montanha que era mais pesado e obrigava
o peso médio a lutar com a mente, usando a física para se desvencilhar das
tentativas de finalização. Ele exigia perfeição no uso dos punhos, cotovelos,
joelhos, canelas, no ataque e, principalmente na defesa. Exú repetia o mesmo
refrão, “guarda alta e olhos nos olhos do adversário; Box não é porrada, é
arte, é esgrima sem lâminas”. Com Santo, os treinos eram leves e espirituais.
Oravam antes e depois de cada sessão. Este o ensinou a inverter a hierarquia
nas lutas de chão. “Se você está por baixo, deve saber neutralizar os golpes e
inverter as posições, escapando dos agarrões como quem desata nós”. Ele comentou:
— Poxa Monta, o menino é muito
bom, ele tem pegada!
— Lógico, está treinando com o
melhor, ou seja, eu. Além disso, não está fazendo mais que sua obrigação.
Continue assim, meu filho.
Logo começou a participar dos
torneios infanto juvenis e venceu todas as lutas. Quando completou dezoito
anos, o mestre entrou em contato com velhos conhecidos e o inscreveu na LFA, na
categoria peso médio. Essa organização é o acesso para chegar às ligas
profissionais. Estava tenso antes da primeira batalha. Montanha o lembrava de
permanecer frio, jogar com técnica e nunca perder a cabeça diante das
provocações. O oponente era maior e a excitação do primeiro confronto o deixou
distraído e nervoso. Perdeu por pontos e saiu desolado do ringue. O velho peso
pesado não se conformava e o repreendia aos berros:
— Quantas vezes eu disse que você
tem que lutar com concentração e usar a cabeça? Quantas outras vezes terei que
repetir as mesmas coisas? Santo ficou em silêncio. Rezou agradecendo a derrota
e tudo o que ela ensina; mas implorou por uma vitória da próxima vez. O boxer
acalmou os ânimos:
— Calma, deixa o Marra comigo.
Agarrou o braço de Vitório e
sussurrou no seu ouvido: “eu também perdi minha primeira luta; depois ganhei
todas as outras. Agora relaxa, você fez o que pode, vamos treinar bastante e tudo
vai dar certo. Ei! Conhece aquela piada do cara que esqueceu a chave de casa no
trabalho?”
Exú contou várias histórias
engraçadas e fez o Marrento sorrir, exibindo suas gengivas sangrentas e dois
dentes a menos na boca. Eles praticaram e se prepararam mais e, no segundo
confronto, o jovem finalizou o adversário no segundo round.
Depois veio uma sequência de mais
seis vitórias, duas por nocaute. Montanha sentia um orgulho imenso, mas não
deixava transparecer a admiração que tinha pelo pupilo. Receberam o convite
para lutar na UFC. Os três treinadores chamaram o jovem e comemoraram, pulando
e dando socos uns nos outros:
— Vamos para a gringa, seus
vagabundos! Brigar nos States, agora a gente sai da pindaíba!
Logo vieram os patrocinadores e
eles conseguiram pagar as dívidas atrasadas, reformaram a academia e juntaram
uma pequena equipe técnica para acompanhá-los nas partidas. Eles venceram o
primeiro confronto com o irlandês Greg Mactower, quando Vitório Marrento
aplicou-lhe uma chave de braço no segundo assalto. Na segunda partida enfrentou
o jamaicano Bob Garret. Este era mais cerebral e acertou um soco no queixo do
brasileiro e o derrubou no primeiro assalto. Ele voltou diferente nos outros
rounds, boxeava, chutava, mas não conseguiu derrubá-lo. O jamaicano administrou
a vantagem do primeiro assalto até o gongo final. Garret venceu por pontos e
foi cumprimentar o oponente com um abraço sincero e apertado. Montanha ficou enfurecido,
aos berros vociferava que o resultado foi roubado e os jurados comprados. Teve
que ser acalmado pelos companheiros e quase levou uma advertência.
Na terceira batalha, enfrentou o
experiente Hernan Toro e teve uma postura mais defensiva. Esperava o ataque do
oponente para imobilizá-lo. Alternava os movimentos, uma das mãos protegia seu
rosto e a outra aplicava-lhe jabs curtos; foi assim até o último assalto e
venceu por pontos.
A quarta foi a mais difícil, Josh
Bop era um adversário provocador, superior em força e velocidade; no terceiro
assalto acertou um chute no olho esquerdo do brasileiro. O golpe o desnorteou,
o sangue que escorria do supercílio aberto o cegava; mas a dificuldade o fez
crescer. Derrubou o americano e o levou para o chão; Com um mata-leão o
estrangulou e finalizou a luta.
O público aplaudia e gritava, o
admiravam pela resistência e humildade. Após o veredito do juiz, foi
cumprimentar o perdedor, que ainda sem fôlego, respondeu: “ fuck you, assrole!”.
O lutador esboçou um sorriso,
despediu-se e foi abraçar sua equipe que transbordava de alegria.
Os exames após o combate
mostraram o descolamento de sua retina. Ele não voltou a enxergar como antes e
demorou meses para se recuperar razoavelmente.
O embate seguinte foi contra El
Chacal e após um jogo extremamente violento acabou ganhando por pontos, o
resultado foi dois contra um.
Na preparação para a próxima,
Montanha parecia exausto, apresentava olheiras e uma cor amarelada na pele.
Deixava constantemente os treinos para ir ao banheiro. Sem dizer nada aos
outros, o velho professor tinha feito exames médicos que acusaram um tumor
maligno em seu fígado, já em estado avançado. Nos exercícios, mostrava-se ainda
ais rígido. Santo e Exú escondiam o segredo, mas não brincavam e nem sorriam
mais. Marrento entendeu o que estava acontecendo e sabia que não devia tocar no
assunto e nem fazer perguntas. Ele ficou mais triste do que nunca. Queria falar
com o mestre, mas não sabia como. Queria abraçá-lo e chorar junto com ele. Não
conseguiu manter o foco e a equipe sentiu o mesmo.
Perdeu a luta seguinte para outro
brasileiro, Severino Cobra, dessa vez foi nocauteado no primeiro assalto e sua
derrota foi humilhante. O público ficou decepcionado e o vaiou no final. A
equipe perdeu patrocinadores, enquanto outros lutadores novatos ascendiam no
cenário e recebiam mais atenção. Muitos comentaristas apontaram para o final da
carreira de Marrento, “Agora ele será mais um porteiro da Liga; só o colocarão
em lutas para ser massacrado. Parece que está seriamente lesionado no olho
esquerdo e não voltará mais a exibir o mesmo nível”.
Eles passaram por dificuldades
financeiras, tentaram pagar os salários, o tratamento de Montanha ia arcar com
os demais gastos. Vitório não tinha mais vontade de voltar ao octógono. Comia
demais e já não se dedicava tanto aos treinos. Os outros estavam perdidos e
voltavam a atenção para o mestre que piorava a cada dia. Uma lutadora
promissora se matriculou. Ela adorava assistir as lutas de Marrento e o via
como uma referência. Um dia tomou coragem e foi falar com ele:
— Ei, esse prato que você está
matando dá para alimentar uma família. Não quer dividir comigo?
— Lógico, senhorita, mas se
aceitar, posso te levar a um restaurante decente. Meu nome é...
— Eu sei seu nome, para mim você
é o cara! Meu nome é Lívia; aceito restaurante, mas antes vamos dar conta desse
rango.
Eles se apaixonaram, ela o
incentivou a voltar á rotina, corriam juntos, praticavam e ele, com quinze
quilos a mais, retomou o ânimo e o gosto pelo esporte. Voltou a gostar de viver.
O namoro deles contagiou o time,
até o velho rabugento recuperou a esperança e todos estavam mais unidos e
confiantes.
Após quatro meses na geladeira,
Exú atendeu o telefone e ficou mudo por alguns segundos; depois disse: “É claro, pode
contar, ele aceita sim. Quando? Daqui duas semanas? Confirmado, estaremos aí,
pode anunciar”. Montanha perguntou o que estava acontecendo e ele respondeu:
— Gente, o Cobra que ia disputar
o título com aquele inglês, o Stone, machucou-se num acidente de trânsito. Ele
está bem, mas quebrou o braço e fissurou os tornozelos. Os organizadores
chamaram os melhores ranqueados, mas todos recusaram alegando falta de tempo
para o preparo. O Marra é o oitavo. Temos que bater o peso e por esse cabra em
forma em duas semanas. Bora lá!
Começaram a preparação para a
mais complicada das batalhas que enfrentaram. Stone era frio, mas todos o
consideravam o lutador mais agressivo da categoria. Acumulava oito vitórias,
estava invicto e venceu as quatro últimas por nocaute entre o segundo e
terceiro assalto. Declarou à imprensa: “É uma pena pegar um dos meus ídolos no
final da carreira; tenho até dó, mas um de nós tem que vencer. O outro é ele”.
Os repórteres riram e a frase foi compartilhada nas redes sociais por milhões
de pessoas.
Durante um dos treinos, Montanha
começou a verter sangue pela boca e o amigo boxer o levou às pressas para o
hospital. Santo com lágrimas nos olhos continuou os treinos:
— Querido nós temos uma luta para
vencer e Jesus está do nosso lado; não podemos parar agora, devemos essa
vitória ao Monta. Eles e Lívia dobraram os joelhos e rezaram; voltaram mais
fortes e focados. Intensificaram os exercícios, Lívia controlava a alimentação
do lutador e o mestre ficou internado. Santo e Exú conduziram as preparações finais.
O grande dia chegou. Vitório e Stone se olharam com ódio durante as
apresentações. Por fim, o inglês cuspiu em Vitório que limpou o rosto e riu,
medindo-o de cima a baixo.
O primeiro round foi intenso, os
dois travaram duelo aberto. Marrento estava levando a pior; Depois de levar um
soco no queixo, caiu e Stone quase o imobilizou. O azarão perdia por pontos. No
segundo round, durante uma sequência de golpes, seu protetor bucal caiu e ele
baixou a guarda, olhou para o juiz e esperou a paralização do confronto para a
reposição do acessório. Foi aí que o inglês ignorou o fair play e desferiu um
chute violento no olho direito de Vitório que caiu desmaiado. Stone já
comemorava a vitória, quando o gongo soou e encerrou o assalto. Árbitro disse que a luta continuaria,
enquanto a equipe inglesa protestava. No corner, o brasileiro estava
desnorteado, sangrando pelo único olho que ainda enxergava; injetaram no corte
do seu supercílio aberto adrenalina e o besuntaram com vaselina. Foi acordado
com um tapa na cara: “Marrento a luta não acabou! Você não foi nocauteado, só
escorregou”. Era Montanha que fugiu do hospital para apoiá-lo.
— Mestre é você! Sempre esteve
comigo e eu não vou te decepcionar.
— É obvio que não. Vai vencer
esse gringo lazarento; manda jabs até deixá-lo em forma de bife. Eu não quero
que ele saia inteiro desse combate. Exijo que ele nunca se esqueça desse dia!
— Eu prometo te dar o cinturão de
campeão. Ele será mais seu do que meu. É o troféu que roubaram na sua última
luta. Você foi o único que cuidou de mim e esse vai ser o meu presente do dia
dos pais.
— Filho, me fazer chora é muita
sacanagem da sua parte. Vai lá e enfia porrada nesse gringo fdp.
No terceiro assalto, Stone tentou
finalizar gastando mais energia e batendo o mais forte que podia; já estava
cansado. Partiu em direção ao oponente e lançou socos com displicência, abrindo
a guarda, tentando ser o protagonista do espetáculo; mas como esmurrar quem
sempre levou surras? Como vencer aquele que convivia com a derrota e a conhecia
melhor que qualquer um? Como machucar quem se acostumou a caminhar ferido
durante a vida toda? Como humilhar alguém que foi chamado e tratado como trapo?
Stone, orgulhoso e distraído, foi
atingido com uma cotovelada que afundou sua órbita ocular direita e o fez
esvair em sangue. Suas pálpebras incharam imediatamente e ele demonstrou
surpresa. Não havia experimentado essa situação em sua carreira. As câmeras
flagraram seu olhar incrédulo, para ele aquilo parecia uma alucinação. Esqueceu
completamente as técnicas e partiu para cima, como numa briga de rua.
Escorregou no próprio sangue e quebrou duas costelas na queda. Vitório foi para
o chão e deu-lhe uma cabeçada fraturando seu septo nasal; depois continuou a
esmurrar seu rosto já transfigurado, até quebrar-lhe os ossos da face. Stone
conseguiu se levantar, mas já não enxergava do olho lacerado, e não podia
respirar bem. Recebeu um soco no ouvido esquerdo, um chute que deslocou seu
maxilar e, finalmente, uma joelhada que arrebentou sua órbita ocular esquerda.
Stone foi derrubado e quando seu corpo bateu no tatame, seu corpo tremia em
convulsões; saiu do estádio inconsciente e numa ambulância. Vitório retirou as
luvas e apontou a cabeça e as mãos para o alto por dez segundos.
Depois abraçou seu time, sua
futura esposa; as pessoas que ele amava. Eles jamais se separaram depois disso;
e Montanha desmoronou, riu e chorou pela última vez antes de se tornar eterno.



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