SEGUNDAS INTENÇÕES >> Carla Dias


Às vezes, a vida decide pela gente. Então, imprevistos acontecem, exigindo cuidados imediatos; planejamentos desmoronam, como se não tivessem mais o que fazer, a não ser preencher o pouco tempo de folga das pessoas com remendos necessários naquilo que, há alguns minutos, era certo. Até aí, sábia vida, não? Gosto de acreditar que ela sabe o que faz, mesmo quando nos empurra para o desfiladeiro do “se vire, vou ajudar, não!” A gente aprende a rolar no desfiladeiro, aterrissar no plano, respirar fundo e então se levantar com dor na lombar e o pé virado, prometendo voltar para a caminhada diária, enquanto manca em direção de casa, para desabar no sofá mais próximo da porta de entrada.  

Entender os mistérios da vida é projeto (de vida) de muitos. Particularmente, não acredito que chegaremos totalmente a esse entendimento, porque a ciência pode elucidar um muito, colaborar  com um tanto, mas ainda teremos quases para a vida continuar a nos assistir enquanto vamos do céu ao inferno como se participássemos do desfile de uma escola de samba vencedora do Carnaval. 

É inegável que a vida tem segundas intenções com todos nós. Mas não podemos culpá-la; quem nunca? A diferença está no nível de energia colocado nessas camadas ocultas de “isso não vai mudar nunca?” e “nossa, muitas mudanças de uma só vez!”

Outro dia, escutei um som alto, olhei para o lado e vi um motociclista parado na faixa, esperando abrir o semáforo.  Ele bateu uma caixa de papelão contra o corpo, com força, e então a jogou ali mesmo, na rua. Olhando para mim, com uma raiva nascida sabe-se lá do quê, ele disse: “Presente pra você, pode pegar, aproveite!” Receber a ironia, em formato de descarte irregular de lixo reciclável, acomodada no vazio de uma caixa de papelão, embrulhada em ódio de pessoa que nunca vi antes, foi uma primeira vez que desejo seja única. 

Sim, a vida tem um quê de Jekyll e Hyde, mas repito: quem nunca? Hoje, penso que se trata de um test drive para aceitar futura inexistência, um adendo fortalecedor da nossa desimportância para o universo. Independentemente da religiosidade abraçada, do ceticismo cultivado, da abstinência de pensar a respeito, ela vive a nos cutucar. Será que, na verdade, a vida não passa de uma esperançosa apreciadora da ironia?

Penso naquela cena do filme “O sétimo selo”, quando o cavaleiro joga xadrez com a morte. Se pudesse me sentar à frente da vida para um jogo, levaria uma vida para desvendá-la. Porém, não nego o fato de que ela é boa no que faz. Talvez more aí a solução: jogar com a vida, não contra ela. Eu sei, a obviedade da constatação é nada perspicaz, batida etc. e tal. Ainda assim... 

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