NO FUNDO DOS COPOS >> KIU OLIVEIRA


 

Depois de colocar o copo para encher debaixo da torneira do filtro, tia Graça tocou na própria cabeça enquanto olhava para a minha, então me perguntei se tinha sido uma boa ideia termos raspado os cabelos, porque depois disso ela ficou meio desligada, a ponto de o copo transbordar até ela perceber que deveria fechar a torneira. Curvou-se, e, com os lábios na borda, sugou o excesso de água; depois o virou na boca.

Copos lembram o meu pai. Há um bom tempo, ele saiu para beber com alguns amigos e não voltou, me deixou plantado numa espera que feria e cansava. Eu só queria entender por que ele não voltava, mas não deveria falar sobre isso nem ficar remoendo. Certa vez, tia Graça ficou irritada, então prometi aceitar no tempo de Deus, como ela gostava de esperar por tudo. Mas aí apareciam os copos, e meu pai estava em todos. Ele dizia preferir os arredondados, especialmente os transparentes, porque dava para a gente ver tudo o que tinha dentro. Esbravejava que os quadrados eram uma aberração, um insulto ao bom gosto. De outros formatos, nem pensar; chegou horrorizado em casa no dia em que lhe serviram a bebida em um copo triangular. Ele tinha um tipo de ligação com eles, não sei explicar qual. Por vezes, eu o flagrei falando com alguns, espiando no fundo deles enquanto sussurrava. 

Dentro da minha cabeça e do estômago, eu lutava para manter tudo aprisionado, mas, aonde quer que eu fosse, lá estavam os benditos. Assim, a promessa de não lembrar do meu pai, de não falar sobre ele, nunca era cumprida. 

Teve um dia em que aconteceu algo estranho. Surpreendi tia Graça espiando o fundo de uma taça e, ao notar a minha chegada, a face dela corou. Os olhos ficaram úmidos. Fui parar em seu abraço, não lembro se ela falou alguma coisa. Dentro daqueles braços, eu só conseguia escutar um coração, sua força. De repente, ela me soltou, me entregou o recipiente e saiu com as mãos encobrindo o próprio rosto. Olhei por baixo, depois por cima, tentando descobrir o que havia no fundo, mas só tinha gotas d’água. 

Nos dias seguintes, percebi que copos incomodavam tia Graça também, talvez mais do que a mim. Quem sabe estivesse procurando o mesmo que eu. 

“O que meu pai tanto olhava no fundo do copo, tia?” 

Ela arregalou os olhos, escondeu os lábios ao fechar a boca com força. 

“Hein, tia?” 

Ela parecia sem língua. Fiquei desconcertado por não saber como conseguir uma conversa. Depois, senti vergonha por minha falta de consideração, por ter quebrado a promessa. Olhei de novo para o fundo do recipiente. 

Virei-me para sair. 

“Sobrinho...” 

Olhei de vez. 

“No tempo de Deus veremos seu pai de novo!”

Eu deveria ficar feliz, mas fiquei sem reação. 

O que tia Graça disse devia ser verdade, ela não era de mentir. Então, não me importei de ficar longe dele por mais um pouco, e dei pulos quando ela revelou que iríamos a um lugar primeiro, para depois nos encontrarmos com ele.

Não foi tão ruim assim no tal lugar, as pessoas usavam o mesmo corte de cabelo que a gente. A parte ruim foi ter de ficar sentado um tempão ao lado daquelas bolsas gotejantes, que no fim terminavam murchas, com gotas no fundo. 

Dias depois, passei a sentir falta dos copos, do fundo deles, do que sobrava. Tudo passou a ser servido em bolsas gotejantes naquele lugar. E o meu pai não aparecia. Pedi à tia para me servir um pouco de água em um copo arredondado. Ela secou os próprios olhos com as costas das mãos; depois, me ajudou a sentar e levou água à minha boca. Fiz um esforço para sugar, meus lábios ardiam, minha boca parecia colada de tão seca. Descobri que água tinha gosto, e era doce. Pedi para me mostrar o fundo do copo. Ela mostrou, seus olhos ficaram molhados de novo, acho que por causa do meu pai. 

Quando o sono ficou insuportável, avisei tia Graça que me acordasse quando o meu pai chegasse. Com os meus olhos diminuindo ainda pude vê-la responder que sim — os olhos dela inundados. E, antes que eu pegasse de vez no sono, a vi espiar o fundo do copo pela última vez.

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