precificar a barbárie >> whisner fraga
não acho que as pessoas perderam totalmente a capacidade de conversar, de ouvir, de respeitar,
ouvir o outro sempre foi difícil para a humanidade, tarefa custosa, acidentada, íngrime,
o diálogo se reconfigurou com a internet, com as redes sociais e antissociais, com a inteligência artificial, é do mundo, amanhecer com tudo mudado,
mas um mudado rançoso, mofado, fraudulento,
será que estou falando bobagem?, abro a página, digito: o diálogo entre os homens mudou com o surgimento das redes sociais?, sim, talvez só queira me agradar e agrada, essa esperta, sabida,
aquela morosidade não existe mais: saudosismo?, será?, acho que não, tento reaprender,
tudo é quase instantâneo e sem as amarras do espaço e mais ou menos do tempo: basta postar e aguardar os corações, os compartilhamentos, a aceitação, a bolha ferve, parece que todo mundo tem razão, até os haters, uns são rasos, outros profundos demais, arrogantes, talvez,
ah, nem o macarrão é mais instantâneo,
todo mundo passou a ter algo pra dizer e, pior, achar que todos devem escutar, é mais importante ter uma opinião do que saber, do que ponderar, aprender,
pior, melhor?, ainda não sei,
a necessidade de se expor, de falar do que almoçou, tirar foto do prato antes de comer, postar, memes, emojis, abreviações, vídeos de oito segundos, textos curtos, a impaciência, a superficialidade,
mas como ser encontrado num oceano de influenciadores?, porque parece que todos na rede só querem influenciar, até a máquina pensa assim,
eu também quero influenciar, inclusive com esta crônica,
nem a calma da pescaria posso mais, tenho pena do peixe, e eu perdi um tanto da minha serenidade que eu só supunha ter, nem a minha bolha tem me agradado, ah, é tão bom ir para um canto da sala, apagar a luz, ruminar e ruminar,
mas é preciso vencer isso, forçar a fala, a escuta, chegar de verdade ao outro, entender um pouquinho, sem rancor ou orgulho, sem esse tom de superioridade, sem a brutalidade da imposição, ah, a violência repaginada,
novamente estamos perto de qualquer coisa selvagem, impostora, patriarcal, negacionista, autoritária, moralista, agressiva, misógina, e eu tenho medo,
sinto-me triste como nunca, sem esperança,
mas é preciso seguir, escutar, compreender, alcançar, reagir, disputar, narrar, atualizar, crer,
não é fácil admitir que também precisamos mudar.
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foto: pixabay.



É de entristecer mesmo, Whisner. Esperancemos. 😉
ResponderExcluirsim, esperança sempre!
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