A NOVATA >> ANDRÉ FERRER

IMAGEM: Gemini

O professor começou a apagar a lousa e Heitor levantou a cabeça. Os três amigos, duas carteiras adiante, já estavam prontos para o intervalo. Cláudio, Júnior e Estéfano, lado a lado, compartilhavam risos e tapas.

O sinal tocou e os três olharam para Heitor enquanto a turma saía. Júnior se aproximou e os outros dois foram atrás dele. O rapaz chegou e apertou um dos ombros de Heitor.

— Então, hoje, tem novidade na área?

Heitor fechou os olhos. Mordeu o lábio inferior. Estéfano e Cláudio esfregaram as mãos.

— Oba!

— Novidade!

Heitor colocou as mãos na cabeça e esfregou os olhos. Os três avançaram na direção da porta. Heitor levantou o corpo e acenou.

— Eu já sei... Esperem! Tem coisa melhor hoje.

— Diga logo.

— A Tânia vai dar uma aula na piscina depois do intervalo e já está nos preparativos... Okay? Eu fiquei sabendo.

Os três garotos trocaram olhares. Cláudio esfregou as mãos e saltou. Júnior e Estéfano giraram o corpo.

— ‘Tá vendo, agora, ele sabe das coisas.

— Bi-qui-ni-nho!

— Virou a nossa fonte de informação!

Eles saíram da sala enquanto Heitor reunia tudo na bolsa. No pátio, o trio caminhava para a piscina. O bedel estava no canto de sempre. Organizava a fila da cantina e indicava o latão de lixo para quem ousasse jogar um cisco no chão. Heitor se aproximou.

— Seu Jorge, preciso mostrar uma coisa.

— Agora?

— Sim. É importante. Envolve a segurança dos alunos.

— O quê? Vamos lá!

Jorge seguiu Heitor até o banheiro masculino, que dividia uma parede com o banheiro das meninas. Lá dentro, Heitor parou diante da pia. Jorge bateu na fronte.

— Eu não tenho a tarde toda.

Heitor respirou fundo, saltou e ajoelhou na pedra. Depois, removeu o espelho com muito cuidado. Surgiu um pequeno buraco na parede. Jorge tirou os óculos do bolso e chegou perto.

— Filhos da mãe... Demônios.

O bedel puxou Heitor pelo braço.

— Já estou saindo.

— Quem fez isso?

— Ninguém sabe. Aluno antigo. Passou de turma para turma e é um segredo... Era.

— Saia. Vou tampar com argamassa. Para o intervalo! Já!

O bedel colocou o espelho no lugar porque dois alunos chegavam em algazarra. Heitor ficou paralisado, a bolsa nas mãos.

— Vai aonde? Ainda tem aula hoje.

— Passar na biblioteca.

Heitor saiu. O trio aguardava perto das bombas de água. Na piscina, duas libélulas e nenhum sinal de Tânia ou de meninas em traje de banho. Os insetos ziguezagueavam e, de vez em quando, tocavam na superfície tranquila.

Heitor cruzou o pátio. Foi se esconder atrás da oficina onde Jorge e o zelador conversavam e lidavam com cal e cimento.

— Pode imaginar?

— São uns animais.

O zelador segurava a mangueira e vertia água na caixa onde estava a mistura. Continha o riso com o braço, vez ou outra, na frente da boca.

Heitor recuou para a horta e aguardou até o fim do intervalo. Era possível vigiar a piscina. Sequer as libélulas estavam mais lá. Então, ele voltou para os fundos e observou os dois homens, que se afastavam. O zelador arqueado por causa do balde. Jorge levava a colher de pedreiro. Heitor foi para trás da construção e aguardou até que o sinal da última aula tocasse.

Depois de contornar dois blocos de salas de aula, ele esperou que um grupo seguisse em direção à saída e entrou no corredor onde ficava o primeiro ano. Ao lado da porta, ele se escondeu atrás de uma coluna. A porta da sala estava fechada e a professora chamava os últimos nomes do diário.

Assim que a voz se despediu da turma, os alunos empurraram a porta. Duas garotas ganharam o corredor logo atrás do tumulto. Heitor olhou para os lados e se aproximou.

— Ele é o meu irmão.

— Conheço.

— Heitor, fiz uma boa amizade logo no meu primeiro dia na escola nova!

— Que bom, Alana! Vamos para casa.

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