DOIS LADOS? >> JANDER MINESSO

 

Me sinto um pouco idiota pelo que vou escrever, mas talvez esse seja o problema. Pensar que algo é óbvio traz consigo uma presunção que é o motivo mais provável de as coisas terem caminhado para onde caminharam.

Acho que o marco zero foi 2013, mas até isso é difícil de precisar. Começou em São Paulo, por causa de vinte centavos. Aí, na noite de treze de junho, a polícia paulistana reagiu com violência excessiva e acendeu o pavio. Não demorou para que um suposto gigante acordasse. Não era mais por causa de vinte centavos. Era por causa de tudo isso aí. Não tem coisa pior do que querer mudar tudo isso aí.

Corrupção é uma coisa endêmica no nosso país e nunca foi exclusividade de um único lado. Mas, nos últimos treze anos, desenvolvemos uma indignação seletiva. Corrupto é o outro. Só o outro sonega imposto. Só o outro tem um triplex no Guarujá ou uma mansão no Lago Sul que ninguém consegue explicar. Somos estúpidos, você e eu, porque escolhemos um timinho e aprendemos que precisamos defendê-lo com unhas e dentes do inimigo. Como se nós dois conseguíssemos entender todas as sutilezas da economia e da política. Todo mundo tem esqueletos no armário: Celso Daniel, as milícias, o Vorcaro… mas fechamos os olhos e passamos um pano. É mais fácil.

Se integridade não é um fator de escolha, sobram os ideais. Você é progressista, conservador ou reacionário? Se você acredita que tem muita coisa que precisa mudar logo, seu viés é progressista. Se você acha que não dá para mudar tudo da noite para o dia e que a gente precisa conservar um pouco daquilo que construímos enquanto Humanidade, trazendo as mudanças necessárias pouco a pouco, então você tem um viés mais conservador. E se você acha que “o mundo tá chato” e que bom mesmo era antigamente — quando só homem votava, ninguém enchia o seu saco por ter um escravizado ou cem e piadas boas eram sobre mulheres, gays ou negros —, você é reacionário (e babaca).

Próxima pergunta: o que você acha de eleger seus próprios representantes? Acha importante? Gosta da ideia de que haja trocas no poder de vez em quando? Ou prefere ter um único governante controlando tudo durante a vida toda, perseguindo quem pensa diferente dele? Isso define se você é democrata ou autoritário. E se você está no segundo grupo, não tem como te defender. A única solução é te deixar preso e longe de qualquer lugar onde suas ideias cretinas causem algum mal. A democracia precisa dessa contradição: é impensável dar liberdade a quem é contra ela.

Aliás, este tema nos leva a mais uma questão: quão livre você acha que cada indivíduo deve ser? Meu pai sempre dizia que “a liberdade de um acaba onde começa a do outro”. Quem você acha mais importante? O indivíduo ou o grupo? O seu bem-estar vem antes do bem-estar da galera? Ou deve ser o contrário? Isso define se você é mais individualista ou coletivista. Deve existir um termo melhor para isso, mas não lembro.

Resumindo: não é tão simples assim definir a sua opinião política. Ela depende, no mínimo, de você se posicionar nestes três aspectos citados aqui em cima: se você é progressista, conservador ou reacionário (lembrando que todo reacionário é um idiota; isso precisa ficar claro); se você é democrata ou autoritário (aqui também é importante frisar: qualquer um que apoie uma ditadura é um imbecil); e se você prioriza o individual ou o coletivo. Para onde você pende em cada uma dessas questões vai definir o seu viés político.

Por tudo isso, falar em Esquerda e Direita é simplismo. Não funciona. Às vezes, precisamos tankar que a vida não é fácil. Senão, acabamos comprando um monte de ideias prontas que não são bem aquilo que a gente pensa. E como todo mundo adora uma opinião, vou te dar a minha, só para ilustrar. Para começar, sou democrata convicto. Abomino qualquer político que flerte com a ideia de tomar o poder na marra e que tente, por exemplo, desacreditar uma eleição. Também acho que precisa existir um equilíbrio entre os interesses do indivíduo e os do grupo, mas no fundo acredito no que meu pai me ensinou: eu devo ter o direito de fazer aquilo que eu quero se isso não prejudicar os outros. E, para encerrar, para algumas coisas eu sou muito progressista, enquanto para outras acredito que as mudanças precisam ser mais cadenciadas para que a transformação não cause mais estrago do que já existe hoje. Complicado, né?

Este não é um texto para intelectuais chatos. É até capaz de algum deles torcer o nariz se ler isso aqui. Esta crônica é uma tentativa de te dizer que você pode ter as suas opiniões, desde que elas sejam suas e não ideias decoradas que te enfiaram goela abaixo. Tomara que esse papo aqui tenha te deixado com algumas dúvidas, porque as dúvidas são boas. As certezas costumam ser bem piores.

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Imagem: Pexels, por Pixabay

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