CAMINHO >> KIU OLIVEIRA


 

Meu nome é João, mas poderia ser Armando, Cláudio, Mário, Otávio, ou qualquer outro e isso não faria diferença se eu continuasse a ter uma filha. 

Chegou o dia de conversar com ela e não sei por onde começar; não me preparei, apesar dos anos de convívio: seus primeiros movimentos, o nascimento, o choro, o riso, as primeiras sílabas, os passinhos, os rabiscos nas paredes da casa, os desenhos de toda a família usando capa, os dentes, a fada, o cabelo com fitinhas coloridas; a escola, as espinhas. 

Preciso de palavras certeiras, que entrem pelos seus ouvidos e alcancem o cérebro sem atingir o peito. O problema é que eu nunca fui bom de mira. No quarto, ela dorme no próprio mundo. Se pudesse escolher, eu a deixaria continuar a sonhar. 

Não posso. 

Vou até o banheiro procurar uma saída. Entro e tranco a porta. Espalho — sobre o pensamento — alguns vocábulos: machismo, misoginia, patriarcado, religião, violência, sofrimento, conivência, estupro, dor, assassinato, indiferença, familiares. Acrescento verbetes e, dessa mistura, surgem apenas frases feias. Então, decido anotar e decorar, como fazia nos seminários da faculdade, nas reuniões de pais e mestres, no AA, no time de futebol do bairro, na eleição sindical, nas idas ao confessionário.

Busco o material necessário e, de volta ao banheiro, alinho pensamento, caneta e papel, escrevo e depois leio, repetidas vezes, até o escrito grudar na minha cabeça. Picoto o papel, jogo no vaso e dou descarga, fragmentos de letras escoam ralo abaixo; mais uma descarga para garantir. Antes de voltar ao quarto dela, tento repassar as palavras internamente: 

Não sou herói nem príncipe, minha filha, o vovô também não, seus tios... Vê todos os meninos?

Meu pensamento trava e, com as mãos escorregadias, confiro se a porta segue trancada. Lavo o rosto, a cabeça ainda em confusão. 

Como dizer à minha filha o que a espera no caminho? Existem palavras com o poder de atravessar a gente sem ferir? 

Um barulho interrompe meu questionamento. Ela bate na porta e exige pressa, precisa usar o banheiro agora ou chegará atrasada ao primeiro dia de aula. 

À mesa da cozinha, atropela as frutas, esmigalha o bolo de milho e queima a boca com o café, mas bebe a dose toda. Aviso para ir com calma, pois a levarei para a nova escola. 

Sei o caminho, pai.

Comentários

  1. Texto profundo!!! 👏👏👏👏

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  2. É apenas...sensacional. Lindo demais, você escreve muito Kiu, parabéns!

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  3. Um socão no estômago escrito com uma humanidade linda. Baita texto.

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  4. Na apreensão de um pai, todo o amor, o medo e a ansiedade em proteger uma menina do mundo lá fora. Na minha cabeça, vi um homem rude, de poucos estudos, mas de muita sabedoria. Vi o Seu Francisco, q encheu de chibatadas o marido da filha. Fiz uma imagem de todo o texto e isso foi muito confortante

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  5. Muito bom. A apreensão do pai em dizer os horrores deste mundo.

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  6. O texto acerta em cheio naquela angústia silenciosa de quem sabe que o mundo não é gentil com as meninas. No fim, a frase da filha é quase um soco: às vezes elas aprendem o caminho antes mesmo de a gente conseguir explicar a direção.

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  7. Não sou pai. Meu lugar de fala não é o de quem empurrou, mas o de quem foi empurrado do ninho. Rsrsrs! Lindo texto.

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  8. Maravilha de texto!
    Não há fórmulas nem garantias. Vontade de acertar, amor e dedicação é tudo o que se pode dar. O resto é aprender junto.

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