FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO
>> Analu Faria

Somos o maior país católico do mundo. Era de se esperar que fôssemos solidários, compassivos, abnegados. Não somos. Gostamos de levar vantagem em tudo (ou quase tudo). Aliás, nem sei se “gostamos”. APRENDEMOS que isso é o certo a fazer. Se não seguirmos a lei de Gerson, seremos idiotas, seremos passados para trás.

Somos considerados um povo caloroso e cheio de amor para dar. Era de se esperar que nos preocupássemos com o próximo como quem se preocupa com a família. A verdade é que vemos a coletividade como inimiga e nossos “chegados” como aliados. A estes, tudo. Àqueles, bem... que Deus os proteja.

Somos tidos como criativos. Era de se esperar que valorizássemos os inventores, os artistas, os estudiosos. Só que não: quem expõe nas galerias é o amigo do amigo de não sei quem ou, quando muito, artistas visuais conseguem expor com ajuda governamental (isso porque ficamos só nos artistas visuais). Inventores e estudiosos têm que lutar para convencer a família, os amigos, o governo de que ciência não é perda de tempo. A criatividade que se valoriza por aqui é a do jeitinho, é a gambiarra, a burla que torna a vida mais fácil — para si mesmo — em detrimento dos outros, de preferência.

Passou da hora de sermos menos “caridosos” e, em vez disso, sermos mais solidários. Caridade é coisa que se faz dependendo das circunstâncias. Por mais que nos vejamos na obrigação de fazer caridade, se o dólar subir, se a crise piorar, se o bolso apertar a caridade deixa de ser feita. Além disso, costumamos “fazer caridade” para nos sentirmos bem com a consciência, enquanto vemos o outro como um coitado e, por consequência, acabamos por diminuí-lo. Caridade é um negócio egoísta para caralho! Solidariedade é mais constante, é livre do medo da consciência. É uma espécie de “responsabilidade” com o bem-estar do outro. Prefiro um amigo solidário ao “calor” do caridoso.

Passou da hora de acharmos que ser religioso significa ser ético. Religião pode, inclusive, justificar um monte de atitudes antiéticas e de preconceitos. Uma amiga que trabalhava com pessoas com deficiência disse que ouviu de uma colega espírita o seguinte: “Cuidado no seu trabalho. As deficiências geralmente significam que a pessoa tem muito o que resgatar.” Em espiritismo, “resgatar” significa, muito grosseiramente, ter que passar por algum perrengue para “pagar os pecados”, uma espécie de penitência. O que a moça quis dizer, portanto, é que minha amiga estava lidando com gente que foi ruim na vida passada. E, veja bem, se foi ruim na vida passada…Nem preciso dizer que o comentário foi muito pouco ético. A ética PRESSUPÕE a aceitação das diferenças e minimiza preconceitos. Ética é um compromisso com o outro. O compromisso de que você agirá de forma transparente e honesta, não importa o quão diferente aquele outro seja de você. Prefiro estar cercada de gente ética do que de religiosos sem noção.

Passou da hora de sermos “malandros” e chamarmos isso de criatividade. Ser criativo em proveito próprio, em detrimento do direito de alguém — da idosa no supermercado à coletividade como um todo —, é pura babaquice egoísta. Aliás, é burrice. Se todo mundo se guiar sempre pela política do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, quando o pirão for suficiente para todos, o comportamento egoísta tenderá a permanecer, mesmo que as condições não sejam mais de escassez. É por essa lógica que grandes empresários e políticos dão seus golpes. Precisar, não precisa. Mas o comportamento já está tão arraigado… Além disso, a malandragem cria um sentimento de desconfiança e desconfiança gera conflitos. Não é à toa que somos uma sociedade violentíssima. A violência não começa na agressão física, mas muito antes.

Passou da hora de assumirmos que não somos um povo afetuoso em um país abençoado por Deus e bonito por natureza. Sem ética, solidariedade, empatia, valorização do coletivo, senso de comunidade, esse pretenso amor e essa pretensa alegria que parecem nos caracterizar são puro discurso demagógico.

Comentários

  1. Passou mesmo da hora, Analu! Bela crônica!

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  2. Bela crônica, mas assim como se deve respeitar as
    diferenças, não se deve generalizar. Ainda bem que
    a autora se posicionou corretamente dizendo "religiosos
    sem noção" e não "espírita sem noção", o que seria
    até contraditória a ideia da crônica. Agradeço por isso.
    Sei que só foi um exemplo mas muitas pessoas
    farão mau juízo de uma doutrina tão
    consoladora e bendita.

    A moça que foi rotulada como "espírita" foi realmente muito
    equivocada na sua afirmação.Ela não pratica
    o principal ideal do Espiritismo que é a caridade,
    respeitando as diferenças do próximo, já que
    não sabemos o que levaram as pessoas a serem como são.
    Mas nem todo espírita é assim como foi exemplificado
    na crônica. Em nome de todos os Espíritas eu peço
    desculpas por esse mau exemplo.


    Mas só para fins de conhecimento sobre a Doutrina dos
    Espíritos vale ressaltar:
    Realmente a pessoa pode
    vir limitada nesta vida por consequência de algo que
    fez na outra, mas NÃO NECESSARIAMENTE. Pode ser uma
    prova (ela pediu para reencarnar nessas condições
    para aprender valores que ainda não desenvolveu
    completamente) ou uma expiação, que não é "penitência"
    e sim aprendizado.

    Ah, e caridade precisa ser solidária para ser Caridade. Caso
    contrário realmente se torna algo egoísta. Existe sim a
    caridade material, mas também a moral que é muito mais
    valiosaao meu ver. E realmente, ela deve ser feita sem
    humilhar o próximo, senão também não é caridade.
    É qualquer outra coisa, menos caridade.

    Sou espírita e para tanto é preciso estudar bastante.
    Segue o link para algumas questões e as obras para sanar
    qualquer dúvida:
    http://www.febnet.org.br/blog/geral/o-espiritismo/duvidas
    -mais-frequentes/


    Ah, na guia "Downloads" no link "obra de Kardec" recomendo
    o cápitulo V do Evangelho segundo o Espiritismo,
    além da obra completa, logicamente. Segue o link:
    http://www.febnet.org.br/blog/geral/divulgacao/downloads-
    divulgacao/obras-basicas/



    Muita Luz a todos, que o Mestre Jesus Cristo esteja com
    todos nós.

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