DIA DE PRAIA >> ANDRÉ FERRER

IMAGEM: Gemini


Saiu da cama, lavou o rosto e vestiu a roupa do dia anterior. Foi para a sala onde estava a bagagem.

Leo conferiu as cadeiras dobráveis, os brinquedos e o guarda-sol. Atrás dele, a esposa chegou e parou entre os batentes da porta, as mãos apoiadas na cintura.

— Leve as coisas para o carro, Leo.

— Quando eu voltar.

Leo desamassou as calças e enroscou os dedos nos passadores. Ergueu a peça e apertou o cinto. Havia peso num bolso.

— É sábado, Leo.

— Melhor assim. Depois, fico tranquilo com você e as crianças na praia. Tenho que comprar pão de um jeito ou de outro.

— E o celular? Está com você?

Leo assentiu.

— Então, seja rápido. Vou acordar os meninos.

A uma quadra da padaria, Leo parou na rua deserta. A luz ficava espaçada ao longo do caminho, um poste aceso, o seguinte apagado e assim por diante até onde a visão chegava. Nos telhados das casas distantes, um princípio de sol.

Leo girou o corpo, olhou na direção oposta onde estavam os restos da noite: um barrado índigo e algumas estrelas no horizonte. Cruzou a rua e parou diante de uma casa marrom. Passou as mãos por cima da grade baixa e, prestes a bater palmas, desistiu.

Sobre a porta de entrada, uma lâmpada estava acesa. O halo caía no pequeno gramado onde estava um triciclo infantil e vários blocos de montar. Um brilho de orvalho cobria o plástico colorido.

Leo recuou e voltou para o outro lado da rua. Enfiou as mãos nos bolsos das calças, mas tirou a mão direita na mesma hora porque aquele lado estava ocupado. Caminhou na direção da padaria.

Toda a vizinhança esperava no balcão. Homens e mulheres numa fila barulhenta. Leo entrou e a última piada ficou perdida em algum lugar entre a caixa registradora e a cortina de tiras coloridas que separava o ambiente comercial dos fornos e das batedeiras. Num só movimento, as pessoas abriram caminho. Leo chegou e o atendente colocou seis pães no balcão. Na caixa, guardou o troco. Alguém resgatou a piada e os outros riram alto quando Leo já estava na calçada e o celular tocou.

— Chefe! Bom dia.

Leo encostou o telefone no ouvido e apertou o saco de papel com a mão úmida.

— Estou resolvendo.

Pressionou o botão, levantou a cabeça e enxugou a testa. Cruzou a rua.

Sobre a porta da frente, a luz continuava acesa. O triciclo, as peças de montar, uma bola que passara despercebida na primeira vez.

Leo colocou o saco de pães na coluna que sustentava a grade baixa e acessou o banco. Transferiu o dinheiro para o chefe, digitou uma mensagem e manteve o olhar fixo na tela. O chefe respondeu: “Aí sim! Missão dada pro Leo é missão cumprida. Bom fds!”

Pegou o saco de pães, limpou o supercílio com o punho, tentou guardar o telefone no bolso direito que estava ocupado. Foi para casa. Em torno do carro desventrado, as crianças brincavam e a mãe terminava de acomodar uma das cadeiras no porta-malas. O rosto do homem obrigou a mulher a interromper o que estava fazendo.

— Aconteceu alguma coisa?

Leo passou por ela, entrou na sala e caiu na poltrona. Logo atrás, chegou a esposa, que parou e colocou as mãos na frente do coração.

Leo esfregou o rosto e deixou os pães caírem no piso. Tirou o celular do bolso esquerdo. Colocou na mesa de centro. Tirou o soco inglês do outro bolso e jogou ao lado do telefone. Olhou para a mulher.

— Tive que cobrir com a nossa grana. O passeio está cancelado.

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