BUNDA NA JANELA >> JANDER MINESSO

 

Era um ritual inusitado. Todo início de primavera, ele entrava na mesma casa e dirigia-se à mesma janela, abrindo bem as duas vidraças. Depois, arriava as calças e sentava-se no parapeito com as nádegas viradas para a rua. Lá ficava durante toda a estação.

O hábito vinha de longa data; ele já havia esquecido a motivação original. Na sua lembrança, alguém tinha feito aquilo antes e alguém faria aquilo no futuro, muito depois de sua partida. Inclusive, era pago para isso.

Ademais, as pessoas tinham prazer em ver aquelas nádegas escancaradas para a rua. Nem todos admitiam, claro. Gente acima do bem e do mal vivia dizendo: “Não tenho tempo para essas coisas”. Porém, mesmo de costas, ele sabia que todos arriscavam uma olhadela diária ao passarem pela calçada.

A maior parte, porém, não fazia tanta cerimônia. Acampavam ali em frente já no final do inverno. Debatiam como estaria o rabo naquele ano: mais enrugado, mais peludo, talvez com um furúnculo. Apreciavam o feio, mas isso ele precisou aprender. Certa vez, deu tratos à pele antes de se apresentar: massagens, hidratação, tudo. Não gostaram. Os contratantes pediram que nunca mais repetisse aquela rotina de cuidados prévios e, dali por diante, abandonou o traseiro às intempéries da vida.

Para sua sorte ou azar, era o que os fãs queriam. Quanto mais feia a bunda na ventana, mais animada a turba. A maioria se contentava em xingá-la e menosprezá-la, mas sempre havia alguém disposto a ir um pouco além. Uns jogavam pedras; outros alfinetavam os furúnculos e se deleitavam com a torrente de pus. Mais de uma vez, introduziram algo na fenda entre as duas bandas e largaram a coisa lá por dias.

Mais ou menos por volta do Dia de Finados, a provação beirava o insuportável. As pernas já estavam dormentes e as farpas do batente raspavam a pele, mas mover-se significava despertar a ira da multidão. Chamavam-no de nomes, citavam leis, estapeavam-lhe aquelas carnes deliciosas de bater. Nessas horas, mirava o lado oposto do cômodo, onde um velho de barba bem cuidada e dentes de ouro o encarava.

— Fica.

Ele ficava. Chovesse ou rachasse o sol, permanecia impávido durante toda a estação. Noventa dias de ordália, até o solstício de verão. Então, sem que nada precisasse ser dito ou feito, ele descia do peitoril, subia as calças e ia embora. Na saída, mal acenava para o velho barbado. Lá fora, não o reconheciam. O povo deixava a calçada e partia em busca de um novo par de nádegas, não muito longe dali. Debaixo de uma árvore babona, diziam haver uma bunda boa de castigar, mas ele nunca se animou a ir atrás.

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Imagem: Petra por Pixabay

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