SORVETE >> JANDER MINESSO
Curtíamos as férias, a esposa e eu, e já estava escuro quando encontramos nossa sorveteria favorita na praça principal da cidade. Ela parecia criança. Pulou, gritou e logo se enfiou na fila sem nem perguntar se eu também queria, afinal a resposta era óbvia.
Não demorou para voltarmos ao passeio, agora de casquinhas em punho. Acabei me melecando com uma laranja cristalizada embebida em chocolate setenta por cento e, enquanto limpava os dedos, vi a cena se desenrolar em câmera lenta: primeiro, o bigodudo empurrando um carrinho de supermercado cheio de tranqueiras na direção da esposa; depois, ele estacionando diante dela, apoiando o queixo sobre a mão e o braço sobre a carriola enquanto a encarava; e senti um sorriso brotar no meu rosto enquanto ela olhava devagar para mim, os olhos num misto de tédio e horror.
— Ah, não.
Cheguei mais perto. O bigodudo não se mexeu, mas desviou o olhar para mim.
— Vocês são casados? Gostaram do sorvete?
— Sim.
— Eu não acho. Todo mundo fala, mas eu acho uma porcaria. Absurdo ter uma fila desse tamanho dia e noite. Não sei se vocês sabem, mas logo ali embaixo fica a sorveteria do Hans, que é muito melhor que essa. Vou lá desde pequeno. Minha mãe sempre me levava, Deus a tenha. Sempre pego morango e chocolate. O de morango é um espetáculo. Esse aí que vocês estão tomando não tem gosto de nada. Sorveteria do Hans.
Dava para ler o “vamos embora” tatuado na pupila da esposa, mas algumas oportunidades são imperdíveis.
— Ali embaixo?
— Segue direto até aquele prédio amarelo e vira à esquerda. Simples assim. Mas não adianta ir agora porque tá fechado. E nem amanhã, porque eles não abrem de domingo. Vocês são turistas, né? Sabiam que eu tenho um hotel na Tailândia?
— Mentira.
— É coisa fina. Quando comprei era uma espelunca, tudo aos pedaços. Botei de volta em pé e fui aumentando devagar. Chuta quantos quartos tem hoje? Oitenta! Quando eu comprei eram menos de oito. No fim das contas, vendi tudo e me aposentei. Hoje, vivo da renda do hotel e também recolho umas coisinhas aqui e ali pela rua para complementar. Você não imagina quanta coisa útil as pessoas descartam.
Ato contínuo, ele meteu a mão dentro do carrinho e sacou alguma coisa ali de dentro como se fosse a Xuxa sorteando uma carta.
— Se liga nesse ventilador: novo. O governo municipal vai baixar uma portaria proibindo as pessoas de jogarem as coisas na rua, então tô me adiantando e garimpando enquanto dá. Adivinha quantos amigos tenho na Prefeitura? De onde vocês são?
— Dez?
— Quatro. Ninguém conhece dez pessoas na Prefeitura numa cidade desse tamanho. Até porque ainda hoje a gente sente muita culpa por tudo que aconteceu lá atrás. É estranho porque faz tanto tempo, mas a História tem esse jeito engraçado de te marcar por uma coisa só. Vocês são um casal muito simpático, viu? Boa noite e bom passeio. Se tiverem a chance, passem lá na sorveteria do Hans e provem o de morango. Tchau.
Saiu empurrando o carrinho e assobiando a Cavalgada das Valquírias. A essa altura, os sorvetes já eram passado. A esposa deu um suspiro longo, passou o braço em volta da minha cintura e retomamos a caminhada. A cidade ficava especialmente pontuda com as luzes amarelas. Era bonito. Quase sugeri uma meia-volta para conhecermos o reduto do melhor sorvete de morango da região, mas uma leve pressão no meu quadril me demoveu da ideia. Olhei para ela e ainda deu para ver um restinho de raiva misturada com graça no fundo dos olhos.
— Eu sei por que você faz isso. Vira crônica depois, né?
Sorri. Seguimos abraçados pela alameda que serpenteava noite adentro.
Para ler outros textos do autor, clique aqui.
Imagem: Steve Buissinne por Pixabay



Comentários
Postar um comentário
ATENÇÃO: Não é preciso ter Conta Google/Blogger para enviar comentários. Você pode inserir comentários com "Apelido" ou como "Anônimo". Só não esqueça de marcar a "bolinha" que fica ao lado da opção que você escolher. E acrescentamos a opção de confirmação de palavras, já que estávamos recebendo SPAM.