LEUCOTEIA >> ALLYNE FIORENTINO

 


As variações de humor dos habitantes das terras paulistanas já são assunto antigo e de conhecimento geral da nação, e essa instabilidade de “bons dias”, “boas tardes” e “boas noites” comumente vira piada para quem ainda é novato. Enquanto em outros lugares do país é certeiro que um “bom dia” vai ser respondido, como requisito mínimo de civilidade, por aqui cumprimentar alguém é sempre uma aventura de etiqueta: nunca se sabe o que o outro vai fazer. Se a pessoa estiver em um bom dia, ela retribuirá a expressão, o que parece até coerente já que o dia dela está bom, consequentemente o humor e o carisma também, mas se ela estiver em um mau dia, aí nem a força da etiqueta fará com que ela minta pra você ou sorria forçadamente... Nada disso! Ela simplesmente não irá responder.

O mais tragicômico é que o indivíduo pode até olhar na sua cara, fazer menção de que vai abrir os lábios, mas se ele não quiser responder seu cumprimento, ele assim o fará sem remorso algum. Se o silêncio te der um tapa na cara, considere-se sortudo. Poderia ser pior: vez ou outra as pessoas surtam, fruto de todo o estresse da cidade acumulado e aí aproveitam para amaldiçoar tudo e todos até a sétima geração, às vezes um xingamento gratuito faz parte da nossa rotina. É por isso que aqui damos “bons dias voadores”, assim jogados ao vento, quem pegar pegou, quem não pegar, deixa o bom dia ir voando até cair no limbo das palavras. Ninguém se chateia mais com isso ou, pelo menos, finge não se chatear – deixemos esse mistério para os dias ruins trazerem à tona.  

É por isso que eu nunca liguei para o mocinho do TI que sempre passou por mim e nunca me cumprimentou. E olha que já convivíamos há alguns anos no mesmo trabalho, passando várias vezes pelos mesmos corredores, visitando de vez em quando o setor um do outro, almoçando lado a lado, assim como já havíamos bebido alguns drinks  nas mesmas mesas de festas de confraternização. Nunca um “bom dia”, nunca um “oi, como vai?”. Mas, como eu disse, nenhum paulistano ou apaulistanado levaria isso muito a sério.

Eu só comecei a ficar intrigada certo dia em que nos encontramos em uma passarela do jardim, naquele dia eu usava um casaco novo, de uma cor que eu nunca havia usado no trabalho. Lá de longe eu vi o mocinho do TI vindo na direção contrária à minha e pela primeira vez em todos esses anos o olhar dele se iluminou de tal forma que eu até me assustei. Olhei para trás para ver se tinha alguma outra pessoa vindo. Nada. Era só eu mesma, com as mãos no bolso do casaco branco, passando pelo tablado de madeira, fazendo um barulho cadenciado com o salto e ele, lá ao longe, com os olhos fixos, como se estivesse me vendo pela primeira vez, com a surpresa de um noivo no corredor da igreja. Ele passou por mim devagar e me cumprimentou sorrindo e entusiasmo: “boa tarde, tudo bem?”.

Pode ser que ele esteja em um dia bom hoje – foi o que eu pensei de imediato, mas logo corrigi minha lógica: um dia bom depois de anos a fio? Estranho, bem estranho. No dia seguinte, vesti-me de preto, como de costume. Passei por ele e nada, nem um “oi”. Voltamos ao normal. Poderia ser coincidência? Poderia, se eu acreditasse nela, mas eu prefiro fazer testes. O que seria da nossa pacata vida se de vez em quando a gente não fizer um experimento aleatório? E assim foi, constatei que todos os dias que eu ia com o casaco branco, ele me cumprimentava. E todos os outros dias em que eu estava vestida de outra cor: nenhuma palavra! Minha incursão empírica foi compartilhada com meus colegas que, se não concordaram com minha paranoia, também não podiam negá-la pelas evidências.  

 Nunca tinha visto alguém com um fetiche tão específico! Nem tão pouco alguém mudar a expressão visual com tanta clareza. Uma peça de roupa, uma cor... e o mundo podia ser diferente pra ele.

Penso que talvez receberíamos mais gentileza pelas ruas se encontrássemos as cores certas para o coração de cada um.

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Imagem: Magnific

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