BUSHIDO >>> Ionio Paschoalin

 


“Mais frágeis que as flores de cerejeira, sopradas pelos ventos da primavera...

Eu me pergunto para onde vai a vida que parte e deixa apenas seu perfume”

                                                                             Asano Naganori

 

                                                                                

A história que vou contar se passou muito antes dos motores controlarem os homens. Ela aconteceu na era do não agora, mas está viva como a alma dos samurais mais honrados.

Oda Hideyoshi não percebia o esforço da luz, que atravessava uma espessa camada de nuvens para brilhar no seu sabre. Praticava os movimentos da katana com os olhos vendados; No entanto seu mestre Tokugawa Nobunaga, observava que ele desenhava perfeitamente os kanjis cortando os ventos com a lâmina, como se a arma recitasse um poema. A espada seguia os passos do lápis. Oda fora acolhido pelo daimiô Nobunaga, três invernos após seu nascimento. O mentor teve vergonha, pois sentiu dentro do peito um orgulho excessivo, que jamais expressaria a quem quer que fosse.

— Jovem pássaro da alvorada, quando chegou aqui, notei que seu destino ocorreria durante o inverno de uma busca; mas não sabia, até há pouco qual seria a procura. Tua missão será encontrar e matar um Oni. Atenta: tal demônio vive dentro de ti, pode enxergar através dos teus olhos e deduzirá tuas intenções. Só a pureza de um coração sereno pode cegá-lo. Não acredites na tua visão, ela muda de opinião conforme a luminosidade.

— Meu sábio Hanshi, onde o encontrarei?

— Te guiarão o perfume das flores, o canto das aves e os conselhos do vento.

Oda lembrou-se do início de seu treinamento, o jejum, as caminhadas com os pés descalços sobre a neve, o aprendizado da caligrafia e filosofia. Fora obrigado a meditar em cemitérios para desenvolver o autocontrole e dominar os pensamentos. Sentiu-se envergonhado, pois nunca deixou de temer as criaturas sobrenaturais, e isso não podia compartilhar com ninguém. Saiu do templo com os olhos cerrados, caminhou até ser abandonado pela esperança.

Quando abriu as pálpebras, continuou cego; estava dentro de uma floresta numa noite sem estrelas. Ouviu o arfar das bestas e deduziu que o inimigo estava próximo. O Oni atirou-lhe flechas através de um yumi, mas Hideyoshi as deteve, cortando-as ao meio com o fio de sua katana; ele era mais veloz que as asas de um beija-flor. O monstro admirado disse:

— Permita que eu me apresente, próspero aprendiz.

— Não é preciso, aberração; eu já te nomeei, Yogareta Doro, o lodo imundo da ignorância.

— Meu nome é Kogaro Ishi, mas aprecio tal alcunha; de toda forma, trazer-te o desespero dos infernos é a natureza do meu jogo.

O samurai arremessou-se contra o Oni, com a espada agarrada pelas duas mãos sobre a cabeça, mas ao proferir o golpe, o ser desapareceu e retornou à sua forma, postando-se atrás de Oda. A besta gargalhava e zombava da valentia do guerreiro.

— Se estás aqui, em combate, como podes proteger aquele que te protegeu?

Essas palavras fizeram Oda despertar de seu ódio. Ele saiu apressado da floresta e procurou o caminho de volta. Ao chegar no templo, viu o demônio decapitar seu mestre. A abjeta criatura exibia a cabeça de Tokugawa Nobunaga e agora Oda podia vê-lo com nitidez; Era enorme e não possuía pele, estava cru. Na carne de seu corpo estavam cravados pregos, anéis e lâminas retorcidas. Abaixo de seus chifres enferrujados havia duas órbitas vazias sem globos oculares. O samurai atirou uma lança contra ele, mas o Oni desmaterializou-se novamente; permaneceu ainda sua risada, como um eco da humilhação recém sofrida. Não sabia como reagir àquele sentimento árido, o qual nunca tinha experimentado. O medo paralisou sua traqueia, ficou sem respirar, não poderia descrever aquilo com kanjis. Seus joelhos dobraram-se involuntariamente. Em pensamento disse a seu mestre, honrado sábio, perdoe-me. Prometo-lhe, esse divertimento custará a vida desse amaldiçoado e hei de arrancar-lhe o sorriso da cara junto com sua boca de esgoto. Ele roubou o sol que morava em ti e te dava a vida. Também sairei a procura deste e o devolverei a ti.

Nesse mesmo dia, ainda atônito, ele encontrou um indiscreto, um ingrato, um insolente, um mentiroso, um invejoso e um não sociável. O primeiro lhe disse: “é um equívoco deixar seu mestre sem proteção”. O segundo: “para que se importar? Já aprendeu as táticas de guerra, o manuseio das armas e o domínio da linguagem. Agora és um ronin e poderás vender teus serviços a bons preços”. O terceiro: “se com todas as habilidades que adquiristes, não fostes capaz de cessar a ceifa do teu tutor, que valor teve o aprendizado”? O quarto: “eu bem sabia que isso acabaria acontecendo; agora aproveite tua vida, ainda hás de encontrar felicidade em coisas banais”. O quinto: “eu gostaria de estar em vosso lugar para ter o prazer da vingança; no entanto, meus instrutores não reconheceram o valor da minha irreverência”. O último: “escolho não pronunciar nenhuma opinião; tu saberás o que fazer, mas não contes com minha ajuda”.

O ronin partiu e caminhou até que as solas dos seus calçados e a pele dos seus pés, estivessem gastas. Seguiu durante a passagem das quatro estações, dezenas de vezes. Cansado e prestes a desfalecer, avistou uma árvore enorme e muito velha; nela havia uma câmara vazia, um colo. Entrou e abrigou-se; não desejava mais, não tinha forças para caminhar e chegou até a esquecer seu nome. Conheceu todas as espécies de aves que passaram por lá. Ele se alinhou àquela árvore até serem, ele e ela, a mesma forma. Insetos e invertebrados anelídeos rastejaram sobre seu corpo de árvore. Alimentou-se deles e bebeu a água das chuvas que escorriam através das folhas, galhos e tronco. Sentia que suas raízes estavam emaranhadas com as dela. Ele pensava os pensamentos dela e, em silêncio, conversavam. Um dia adormeceu e reencontrou o mentor em um sonho:

— Pois bem Oda. Fostes semente, fostes broto, teu tronco cresceu, tuas raízes espalharam-se sob o solo e te tornastes árvore; agora desperta e busca. Não cumpristes nem tua missão, nem tuas promessas. É o momento de voltar a ser um samurai.

Ele despertou assustado, ergueu-se e viu que acabara de romper as gavinhas que se formaram entre ele e a árvore. Tinha que ir, mas antes deu seu primeiro e último beijo em seu tronco e a abraçou com força. Ela foi a única mãe que teve e, através dela, aprendeu algo que o Dojô não podia ensinar: o poder do carinho.

Saiu e, ao chegar na estrada, um imenso sol se apresentou no céu. Ele percebeu uma vasta plantação de lírios vermelhos, mas um deles brilhava mais que os outros. Aproximou-se:

— Olá pássaro, como é bom te reencontrar! Realizaste a promessa que fizeste no dia da minha ceifa e achou meu sol. Agora sou este lírio; abandone sua katana, apanhe-me e guarde-me em seu bolso, pois não precisarás mais de qualquer arma.

Voltou para a estrada e andou mais um pouco, avistou o Monstro que maltratava uma criancinha. Oda percebeu que o Demônio estava mais velho e entendeu que ele próprio também envelhecera.

— Eu ordeno que se afaste desta pequenina, seu covarde; tu és o ópio da consciência!

— Ah! Quem és tu para me dar ordens, lambe-botas dos samurais? És gente ou és planta? Foi a vingança que te trouxe? 

— A mente deve ser como vácuo, onde nada se apega.

— Vou te derrubar e te carregar comigo.

— Caio sete vezes e levanto-me oito.

— Sou mais forte e hei de te devorar.

— O salgueiro não quebra com o peso da neve.

— Como pretende me vencer? Sou demônio e te prometo o pesadelo eterno.

— Gotas de água perfuram a pedra, parasita asqueroso.

O ser avançou contra Oda e deferiu-lhe um golpe com seu kanabô de ferro; O guerreiro saltou e, ao alcançar o vento, parecia levitar no ar, estava leve como pluma e firme como sua honra. O diabo tentou atingi-lo de diversas outras maneiras, sem sucesso. Isso o enfurecia e o ódio já não lhe causava prazer. Chorava de raiva:

— Ora! Não trouxeste teu sabre para que possamos duelar adequadamente?

— Sabre? Não preciso de tal artifício. Até aqui te derrotei com a poesia e com os movimentos. Anseias por ver a arma que porto? Ei-la!

O samurai retirou o lírio com a alma de seu Hanshi do bolso e o apontou contra a criatura. O monstro surpreendeu-se. A flor emitia uma luz que queimava sua carne, logo a chamuscou em labaredas; o fogo espalhou-se sobre seu corpo e o deformou ainda mais.

— Cessa, ordenou o guerreiro, e o fogo apagou-se imediatamente.

Humilhado, mas com um resto de arrogância, o ser ainda ameaçou um golpe contra Oda, sua mão parou antes de tocá-lo.

— Que maldição! O que segura minhas mãos?

— Não descobriste, ignorante? O que te paralisou foi a própria paralisia, pobre diabo.

Eu te subjuguei e, em instantes, matarei o que sobrou de ti. Como demônios não sabem escrever, antes de te levar, dar-te-ei como presente um poema de morte:

“Doce é o sabor de vencer o demônio que mora dentro de si; ele é o criador dos pesadelos, que tece com linhas de sonhos e agulhas de desespero.

Após meus olhos dormirem, e minha alma esvair, ainda serei atormentado por monstros, mas agora virão sem me causar medo”.

 

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