café com vexame >> whisner fraga

 


eu me sento, encastro os fones na orelha (com cancelamento de ruído no máximo - depois conto mais sobre isso), arranco um naco do bolo, levo à boca no mesmo instante em que a música se esparrama pela cabeça, 

o paraíso,

os olhos se fecham para dar espaço aos outros sentidos, que tomam conta de mim,

não sei quanto tempo se passa até um sobressalto me despertar: alguém me chama,

me desperto, desligo os apetrechos eletrônicos, afasto a bandeja, ajusto o colarinho, pigarreio, volto um pouco à frivolidade do real,

há um homem impaciente aguardando minha atenção,

está de calça jeans, tênis, camiseta, é educado, meia-idade, alguém comum,

oi?, o senhor poderia me pagar um cafezinho?, sim, pode pedir lá e dizer que é por minha conta:eu queira voltar ao paraíso da insociabilidade,

mas a impaciência do sujeito se converte em servilismo e eu odeio isso, essas vênias exageradas a título de agradecimento, 

segue até o balcão e pede um café (do grande), um suco, um croissant, uma fatia de mamão e um bolo (me vê um pedaço maior aí, hein?), a mulher, ríspida: quem vai pagar tudo isso?, ele aponta para mim, todos se viram, acompanhando a novela, pronto, lá se foram meu dia bom, minha paz, a alegria pegando carona,

confirmo, tento reavivar a serenidade, mas ela escapa quando me recordo que fui feito de trouxa: claro, um cafezinho é eufemismo para café e (muitos) acompanhamentos, óbvio, né,

preciso sair outra vez do meu canto para acertar o majestoso desjejum do espertinho, e isso é até pior, para mim, do que ter sido enganado,

eu me aproximo do caixa, a moça empunha a calculadora, vou ditando os acepipes e as teclas até parecem querer se incendiar, principalmente o zero, que só aparece depois de outros números, nunca antes,

ela me apresenta o total e simultaneamente o esperado e temido sermão, você caiu na conversa fiada dele, ele está aqui todo sábado, é um malandro, nós sempre damos comida para ele, você foi bobo de falar que pagaria, ia reprimindo e cobrando, era muito desagradável, como meu semblante devia evidenciar,

pensei na atendente gritando quem vai pagar tudo isso?,

se vocês dão sempre, por que está me cobrando?, não podem dar esse de hoje também?, e eu podia sair sem essa última: uai, você que quis pagar,

não volto ali nunca mais, de hoje em diante tomo meu desjejum em casa.


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imagem: gemini.

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