KISITO - primeira parte >> Albir José Inácio da Silva
Quisito se esgueirou pelos corredores com o estômago embrulhado ainda do cheiro de sangue, de éter e de pacientes. Seis anos na escola de medicina, com direito a arrepios, esgares e outros sofrimentos, coroados agora com plantões na emergência.
Queria fugir para a rua, de jaleco e estetoscópio, e nunca mais voltar, mas isso significava matar a mãe. Era mesmo um fracassado!
O apelido evoluiu de Joaquinzinho para Quinzinho e Quinzito, mas os amigos optaram por Quisito, de esquisito mesmo, porque ele era muito estranho. E para a mãe era Quinho - diminutivo de qualquer coisa linda da mamãe. Ele não gostava de Quinho porque denunciava a relação infantil com a genitora, mas nunca se incomodou com Quisito porque se achava mesmo fora dos padrões.
Dona Joaquina teve três filhos. Os dois mais velhos estudaram engenharia, são egoístas, arrogantes e o orgulho do pai. Quinho é o caçula, o xodó e a maior preocupação da mãe.
- Ele não é como os outros, é um menino sensível e incompreendido – exasperava-se, reconhecendo os problemas e desajustes do filho. – Até a namorada dele é esquisita – admitia.
Ela queria que ele estudasse medicina porque era uma mulher muito doente, e os médicos não acertavam com a sua doença ou não acreditavam nela. Verdade que os exames nunca acusaram nada, mas as queixas eram muitas. O problema é que Quisito detestava sangue, agulhas, cortes, cadáveres. E até doentes, com exceção, claro, de sua mãezinha.
Com o coração pesado por contrariar a mãe, Quisito foi fazer engenharia porque, se ele não gostava, pelo menos não tinha sangue.
Quisito, apesar de estudioso porque a saúde da mãe dependia de suas notas, não gostava de nada. Era bom de inglês porque vivia escutando umas bandas estranhas e jogando uns games não menos esquisitos.
Na formatura, ele era o menos animado. Foi trabalhar com os irmãos, mas não passou do estágio. Sabia alguma teoria, mas não tinha segurança pra desenhar uma janela. Era desatento, não queria aprender e passava o dia no celular jogando videogame. Acabou expulso do escritório dos irmãos que não queriam o vexame de ter ali uma criatura tão desajustada.
Isso chegou aos ouvidos da mãe e ela ficou de cama, despedindo-se a cada dia. Ele, na cabeceira, se culpava. A velha só melhorou quando ele prometeu.
(Continua em 18/10/2021)


COMO ASSIM??? Dom Albir, isso nao se faz! E acho bom essa história continuar leve e engraçada. Ultimamente vc deu de nos surpreender com seu agridoce. Estou curiosíssima pra ler a continuação do nosso esquisitinho.
ResponderExcluirO que será que vai acontecer??
ResponderExcluirque ótima surpresa. sua volta (das férias) está sendo em grande estilo, nem vou elogiar (apesar que deveria fazer isso) mas sei que a melhor parte está vindo por ai. Grande Mestre Albir, alegria em poder te ler!
ResponderExcluirObrigado, Zoraya, Anônimo e Branco!
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