UM GESTO, DUAS CIDADES >> Sergio Geia
Ouvi uma conversa.
A mulher carregava no ombro uma bolsa. Encontrou a amiga e
parou.
— Quanto tempo!
Abraçaram-se com certa intimidade.
—Você vai à missa? — perguntou a amiga, curiosa que só ela.
A outra sorriu, levemente surpreendida:
— Não. Estou
caminhando.
A explicação veio rápida, quase um pedido de desculpa pelo engano:
—
É que você está de bolsa… pensei que fosse à missa.
— Estou de bolsa porque trago
pão e café para as pessoas em situação de rua. Quando a bolsa está vazia, aí sim
começo a caminhar.
Houve um pequeno silêncio, a amiga arregalou os olhos:
— Nossa… que linda atitude!
Depois se desculpou:
— E o que eu tenho a ver com isso? Xereta… desculpe,
Amélia. Não tinha nada que perguntar.
Deu ainda para ouvir
um rabo de conversa:
— Estive longe por quase seis meses. Uma cirurgia de hérnia
de hiato me afastou.
Perto das amigas, um homem de pés descalços segurava um copo plástico de café em uma das mãos; na outra, um pedaço de pão.
Continuei.
Mais à frente, a cidade já era outra, ou talvez
fosse a mesma, apenas sem disfarce.
Outro homem
remexia o lixo; as mãos iam e voltavam, teimosas. Procurava comida.



Cá estou pensando e desejando que a conversa tenha terminado logo para que o pão e o café chegasse ao homem que buscava por comida…
ResponderExcluirGrato, Pollyana. Como disse uma amiga, é um anjo, mas sei não se dá conta.
ResponderExcluirVocê tira umas fotografias do cotidiano muito boas, Sergio. Nem sempre bonitas, mas sempre muito boas.
ResponderExcluirDoloroso, mas seu texto torna palatável. E obriga a pensar.
ResponderExcluirO poeta das pequeninas coisas tb tira retratos doloridos
ResponderExcluirSempre delicado e atento aos detalhes da cidade, Sergio...
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