TÉDIO >> Carla Dias


Enfadado com a rotina, camufla prejuízos emocionais dos assessores e colaboradores. Realizado, ticou a lista de desejos e deveres, completou tarefas, chegou ao ponto, ao topo, ao se tornar quem desejava ser desde pequeno. As pessoas, especialmente os familiares, escancaravam admiração quando o assunto era “o menino mais inteligente que já conheci”. Eventualmente, o menino se tornou o homem que, com sorte, eles encontravam uma vez ao ano e com quem trocavam três ou quatro frases, antes que anunciasse algum telefonema importante.

A egotrip pontuou todo o seu caminho rumo ao sucesso. Os espectadores adoravam a forma arrojada, ainda que jocosa, de ele sair vencedor nas negociações. Não importavam o produto, o sujeito, a situação, a dificuldade. Ele resolvia e fechava o negócio.

Acontece que há um negócio com o qual ele não anda lidando muito bem. Depois de anos navegando pelas realizações, pelos prejuízos transformados em oportunidades, nas viradas, o que antes era sonho realizado, conquista, tornou-se fastio. Nada mais o fazia sentir a excitação de antes. As pessoas à sua volta comemoravam os espetaculares eventos corporativos, as marcas, as manhas que davam certo, o conhecimento que conduzia ao êxtase. 

Para ele, começou com a ausência quase absoluta das reuniões, e assim seguiu por um bom tempo. Houve dia em que passou a reunião inteira com fones de ouvido, escutando Led Zeppelin. Chegou mesmo a cantarolar, sem se dar conta:

What did you bring me my dear friends / To keep me from the gallows pole?

Nada como sócios para mudar o status do proprietário de uma empresa de diretor para acionista com alcance mais performático do que comercial. Quando isso aconteceu, não reclamou. Nada mais ali lhe trazia a excitação de antes.

Depois de muito tempo sendo apenas garoto-propaganda na empresa que criou e fez crescer exponencialmente, e de passar muito tempo assistindo à televisão sem dar muita importância ao que assistia, teve uma ideia que lhe cutucou os sentidos. Durante meses, assistiu a uma grande variedade de telejornais, embarcou em uma pesquisa detalhada sobre seu funcionamento e se descobriu apaixonado pela ideia de se tornar apresentador de telejornal. Na estreia do programa que criou, na emissora que havia comprado havia mais de dez anos, todos da empresa, especialmente o alto escalão, satirizavam o feito.

Em meia hora de programa, os sorrisos escrachados começaram a mirrar.  O homem que conheceram antes estava de volta, aquele que esticou o tapete para eles desfilarem. Havia carisma, uma capacidade insana de usar a ironia a seu favor. As redes sociais do telejornal estavam em furor. Eles nunca conheceram alguém tão capaz de noticiar tragédias e crimes hediondos com tamanha leveza. Ele se valia da empatia como se colhesse fosse flores em um jardim de pecados, fúrias, crimes violentos, injustiças. 

A quase indiferença, e a ideia de que as notícias eram histórias que apenas ele saberia contar, com personagens impressionantes; a habilidade de, mesmo não havendo elementos, incluir na matéria mulheres grávidas, crianças, homens incapacitados por trabalhos braçais, animais de estimação, homicídios, feminicídios, miséria, luxúria, sequestros ou desaparecimentos (adora acidentes de carro sem sobreviventes), fizeram o hábito de repórteres perguntarem a quem sofreu uma perda imensa, de casa ou de pessoas, amigos ou familiares, “o que você está sentindo agora?” tornar-se menos do que de fato é: a pior forma de ganhar público.

Mas o que importa é que, novamente, ele sente o desejo pulsar e responde a quem lhe pergunta como se sente agora?:

— Fantástico!

Além disso, os sócios agradecem o sucesso, sempre. Até voltaram a sorrir.

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carladias.com.br




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