AO LADO DO FOGÃO >> ANDRÉ FERRER
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| IMAGEM: Gemini |
Quando entrou no quintal, avistou a mulher sob a cobertura do tanque de lavar. Como deixara o prato na mesa, acenou, entrou na cozinha e desfez a trouxa de guardanapo. Agora, podia comer.
“O velho esqueceu isso aí”, disse a mulher ainda na porta. “Você viu?”
“O quê?”
O marido tirou um fiapo da boca e engoliu o resto da vagem que tinha rasgado com os dentes. Do outro lado da mesa, estava a carteira de documentos do tal velho.
Incrédulo, o marido levantou a moringa, encheu o copo e bebeu água fresca com os olhos fechados. A mulher sentou-se na cabeceira. Quando ele abriu os olhos, viu a interrogação na testa dela.
“Primeiro, vou jantar”, ele respondeu e abaixou a cabeça. Os lábios engordurados do homem brilharam quando a mulher acendeu a luz da cozinha.
Ela saiu e, dois minutos depois, um pano estalou no quintal. A mulher bateu a peça várias vezes, lá fora, enquanto o homem comia em paz.
Assim que terminou, ele surgiu no alpendre e encontrou a esposa, que voltava.
“Ele não vai precisar de documentos hoje. Você acabou de voltar de lá. Fica sossegado.”
À distância, a estrada que levava à casa do velho já estava sombria. O Sol vermelho roçava no alto das árvores acima da Curva da Tocaia. Um capão denso escondia o casebre nos limites de uma antiga fazenda.
“Volto lá de manhã”, disse o homem.
A mulher já recolhia o prato quando ele entrou.
Assim que amanheceu, ele foi até a casa do velho. Na estrada, havia diversas cruzes que, segundo os relatos, marcavam as últimas emboscadas feitas por jagunços nos anos de 1970 e início dos 1980.
Em pleno capão, ele remoeu tais histórias e sentiu a pele das costas gelar. Era, mesmo, um local tenebroso. Ele até escutou um estalo entre as árvores e teve a impressão de que alguém o observava detrás de algum tronco.
O velho, talvez, tivesse medo de voltar para casa, à noitinha, por causa daquelas histórias. Por isso, toda vez que ia à cidade e precisava voltar ao anoitecer, pedia para que alguém o acompanhasse.
“Ó de casa!”, chamou.
A porta da frente estava aberta e, também, uma das janelas. Mesmo assim, a resposta não veio.
Queria entregar os documentos e ir ao trabalho, que ficava do outro lado da cidade. Por isso, tornou a chamar e, uma vez mais, foi em vão.
Impaciente, o homem avançou e cruzou o terreiro estreito além da cerca semidemolida. No interior da casa, um cheiro forte de tabaco e fumaça denunciava a presença humana, porém o lugar já estava vazio. O velho, provavelmente, acabara de sair.
Sobre um banco, ao lado do fogão à lenha, o visitante deixou a carteira. Na parede, a fuligem imprimia a silhueta de uma espingarda que, pelo jeito, estivera pendurada por muito tempo no mesmo lugar. Um prego, um pouco acima da altura de um homem, estava lá para confirmar.
Assim que saíu, ele encostou a porta da frente e tomou a estrada a fim de voltar para a cidade.
“Curioso!”, balbuciou à entrada do capão.
As caminhadas, com o velho, eram recorrentes. De tardezinha, o velho aparecia e jamais deixava de comentar sobre a grande ironia que fora a decisão do chefe, já moribundo, de pagá-lo justamente com um pedaço de terra ao lado da Curva da Tocaia. “Ora! O patrão me queria naquele posto de tantos anos, até depois da sua morte, só para eu proteger o lado mais ermo da fazenda.” O velho abaixava os olhos, para evitava o bosque, e ficava quieto até chegarem ao casebre. Foram, de fato, inúmeros finais de tarde, no capão, com aquele velho assombrado.
Alguns metros adiante, o arvoredo cresceu ao redor da estrada e a impressão de que havia olhos na mata recomeçou. O gelo subiu pela nuca. Ele apertou os passos. Procurou se distrair com as esquisitices do velho que, só por Deus, mantinha um trabuco ao lado do fogão! Curiosamente, nas vezes em que entrara no casebre, nada tinha visto naquele canto. Devia estar escuro demais.



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