ORAÇÃO PARA CONTINUAR
Desligo o despertador do celular às duas da manhã. Minha esposa acorda ao meu lado; digo que pode voltar a dormir. É a minha vez de conferir se está tudo bem.
O filho mais novo dorme no berço ao lado da nossa cama. Eu o ilumino com a lanterna do celular e o observo atentamente: o diafragma em movimento. Ajusto os sentidos, então ouço o som da respiração dele, o ar fluindo em seus pulmões. Encosto o ouvido em seu peito, que vibra com pressa.
Saio devagar e sigo até o quarto dos outros dois. Em sua cama, o filho do meio está descoberto e encolhido em posição fetal. Ajeito o cobertor sobre ele que, sem acordar, termina de se agasalhar com as próprias mãos. Espero ele parar de se mexer para verificar sua glicemia. Faz dois anos desde o diagnóstico do diabetes mellitus tipo 1. Colo o ouvido em seu peito para escutar a vida; os sonhos.
O filho mais velho ocupa uma cama inteira. Lembro-me de ele medir pouco mais de um palmo e caber em minhas mãos. Não se move, por isso encosto o dedo indicador em suas narinas e sinto o ar indo e vindo, morno. Seu coração bate forte. Dorme pesado.
Volto para a cama, minha esposa pergunta se está tudo bem, aceno que sim.
O óbvio me espanta: os filhos crescidos comprovam a pressa do tempo, uma força imparável. Pensar que um dia nos separaremos alimenta a insônia. Então procuro conforto na ciência — quem sabe dure muito —, e agarro-me à fé — nos almejados reencontros, lá no Paraíso. Ainda assim, tilinta em minha cabeça o medo da falta. É quando fecho os olhos e faço uma oração, percebendo, em todas as minhas veias, correr o sangue e as histórias da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos, de todos os meus familiares e de meus ancestrais. Isso me revigora.
Estaremos juntos, mesmo afastados por opiniões, afinidades, quintais, ou pelo tempo.
Nenhum peito se move sozinho. Amém.



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