MANUAL DOS CORVOS QUE TODOS DEVEM SABER, MUITO BEM SABIDO >> Zoraya Cesar
Era muito pequeno quando caiu do ninho, aterrorizado e só. Mas
valente. Piou de cair o bico quando o gatinho chegou, cauteloso, farejando,
querendo saber o que era aquele brinquedo novo, que se mexia de jeito tão engraçado.
O pavor só aumentava. Um outro animal se aproximou, peludo e
grande, emitindo um som alto que quase estourou os frágeis tímpanos do
serzinho.
Uma humana veio correndo, tirou-o das patas brincalhonas e
afiadas do gatinho e aconchegou-o entre as mãos. O bichinho tremia
descontroladamente, piando fraco, agora. Que lindinho, será um anu-preto? Anu-preto,
gralha ou galinha da angola o fato é que urgia levá-lo para dentro.
A mulher olhou em volta, mas não viu ninho nem outras aves.
O cachorro abanava vigorosamente a cauda, olhando para a mulher como se
dissesse pega ele, leva pra casa, eu ajudo a cuidar, leva, leva. A mulher
afagou-lhe a cabeçorra e, segurando um filhotinho em cada mão, entrou. Aquela
noite prometia ser fria, era bom que os animais estivessem abrigados.
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Com o tempo, também, a avezinha se revelou um belíssimo,
enorme e assustador corvo. E com personalidade própria, como todo corvo que se
preze.
Gostaria de dizer que a mulher, já idosa, era uma bruxa,
feiticeira, macumbeira, vuduzeira. Mas estaria mentindo. E todos sabem, muito
bem sabido, que jamais, em hipótese alguma, deve-se mentir quando há corvos
envolvidos na história.
Era uma mulher comum, que amava os animais, nunca fizera mal
a ninguém e que tinha os problemas dela, como todo mundo. E, sendo essa uma
parte importante, voltaremos a isso mais tarde. Por ora, falemos do corvo.
Era quase um militar de asas, metódico e disciplinado. De
manhã ficava em altas conversas e brincadeiras com o gato e o cachorro, saía
depois do almoço e só voltava ao anoitecer, sempre na mesma hora em que fora
recolhido pela mulher quando filhote.
E o que fazia durante o dia? Muito não posso dizer, pois,
como todo mundo sabe, muito bem sabido, não se deve violar o manual de regras
dos corvos, no qual está, muito claro, que os corvos têm seus segredos.
Mas o que posso revelar, digo aqui, sem correr riscos:
observava os vizinhos, sabia a rotina de cada um e como tratavam a mulher; percebeu
que, toda vez que os filhos a visitavam, a mulher chorava horas, desconsolada, agarrada
com o cachorro. Encontrou um bando de corvos na vizinhança e com eles aprendeu
muito. Coisas desse mundo e do outro. Mas, como vocês sabem, muito bem sabido, não
posso revelar detalhes.
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Houve um dia que os filhos chegaram, mais resolutos que
nunca. E com eles, o inferno.
Mexeram em tudo, levaram coisas, avisaram que iam internar a
mãe no asilo, revolveram a cova do cachorro, puseram veneno na água do gato
(que não bebeu, ou por instinto, ou por proteção da deusa Bastet). Saíram
deixando um cheiro pútrido de crueldade abjeta e insana.
How sharper than a serpent’s tooth is a thankless child*, diria
o corvo, se tivesse lido Shakespeare. Não leu, mas entendeu plenamente a dor de
sua humana.
As visitas ser repetiam, cada vez mais amiúde, e o estrago
na casa e na saúde da velha senhora aumentava a níveis insuportáveis. Mais um
pouco, e eles não precisariam despejá-la, ela morreria de angústia, desgosto, desespero.
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Ninguém jamais soube explicar; alguns desconfiavam, mas tudo
era tão extraordinário, que chegava às raias do inacreditável. Eu sei bem o que
aconteceu, mas, vocês sabem, bem sabido, que não posso contar muita coisa. O
manual de regras dos corvos, etc...
Mas posso contar os fatos, tais como aconteceram.
Filho nº1
Encontrou os quatro pneus do carro totalmente arriados,
furados. Não entendeu nada, mas comprou novos. No dia seguinte, a mesma coisa. Fez
um escarcéu, brigou com os vizinhos, acusou deus, o diabo e o mundo. Mas não
descobriu o mistério. Descontou dando uns sopapos na esposa, que rezou
ardentemente para que ele nunca mais desse as vistas (cuidado com o que pede.
Ou não.)
No terceiro dia de pneus furados, um domingo, resolveu sair
de bicicleta (sim, gente má também anda de bicicleta). No parque vazio,
estranhamente vazio, ele se divertia a perseguir um pequeno corvo que
cambaleava pela pista. Estava em plena gargalhada quando vlau!
uma pancada na cabeça o desequilibrou. Nem deu tempo de se recuperar e vlau!
Outra pancada o derruba. Eram corvos. Um deles cravou-lhe as garras na barriga
frouxa. Ele grita, mas não há quem possa ouvi-lo. Só havia ele. E muitos
corvos.
Um avançou para seus olhos, arranhando-os dolorosamente. O
filho nº1 tenta voltar para a bicicleta, mas os pássaros, com bicadas e
crocitares estridentes o empurram para o promontório, em cuja murada ele se
apoia, exausto e apavorado. Precisava escapar! Implorou para um deus qualquer
com o qual nunca tivera intimidade.
Filho nº2
As portas do carro, da casa, as roupas do varal, tudo o que
estivesse à vista fora arranhado e rasgado.
E, à noite, um som estridente e lamentoso de gatos entrou
pelas frestas da casa, pelos vãos das janelas, pelo ar que se respirava, penetrando
no fundo da alma do filho nº2.
Que inferno de vizinhança, gatos estúpidos, vou espalhar
veneno em todo canto quero ouvir miado de gato morrendo isso sim. E assim o
fez.
Na noite seguinte, o silêncio era total. Não se ouvia um
farfalhar, apesar do vento que insistia em sacudir as árvores. Não se ouvia
carros ao longe, não se ouvia a televisão dos vizinhos, não se ouvia os ruídos
da vida. Nada. Se ele prestasse atenção aos sinais, perceberia quem nem seu
próprio coração emitia som.
Naquela manhã, os vizinhos se depararam, espantados, com o
carro dos bombeiros resgatando o corpo morto do filho nº2; a esposa gritando
que encontrara um pássaro negro enorme sobre o coração do marido, mastigando um
pedaço de língua do falecido. E um corvo, um único corvo, assistindo toda
aquela azáfama, tranquilamente pousado em cima de um telhado.
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tudo. O gato tinha amigos no mundo dos deuses antigos; o corvo, também. Espero que vocês acreditem, afinal, sabem, muito bem sabido, que não posso mentir.
Ah, sim, quase ia esquecendo. A velha mulher viveu em paz,
livre dos filhos obsessores.
E posso, também, dar um final. Até porque tudo chega a um
fim. E nesse dia, todos se juntaram ao cachorro naquele céu muito especial
onde os verdadeiros amigos se encontram e vivem para sempre.
*“Quão mais cortante que o dente da serpente é ter um filho ingrato!" Tradução da fantástica Bárbara Heliodora
King Lear (Rei Lear), no Ato 1, Cena 4. Rei Lear se lamenta pela ingratidão de
sua filha Goneril, após ela reduzir o número de cavaleiros da comitiva do pai.



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Comentários
E Shakespeare deve ter ficado muito satisfeito em ser citado no texto zorayacesárico.
Eu sei que eu não sirvo como parâmetro de leitor, mas, no meio de toda aquela enorme população de personagens inigualáveis que ele nos legou, o Rei Lear é o meu favorito, por toda a carga dramática que carrega, por consequência de suas próprias escolhas.