ENSAIO >> Carla Dias
Não vê problema em nada do que acham melhor. Tem suas conversas com Deus e, não raro, convida para essa roda os filósofos, os cientistas, os teólogos e as pessoas que, mesmo sem títulos, dão nome às importâncias, criam espaço para elas, tornam-se indispensáveis sem compreenderem que são fundamentais na história de outros. Está comprometida com o não se comprometer somente por se comprometer. Exercita, diariamente, o não se render ao papel que já desempenhou um dia, e tão bem, que acreditou que havia nascido para ele.
Escolheu se abster da comodidade gerada por armadilhas programadas, com a finalidade de controlar o que nela já não se contém. Parou de se importar se iria para o céu, para o inferno ou para o nada absoluto. Perdeu o interesse em ruminar o futuro, já que não sabe do que ele se trata. Jurou que sua vida também teria espaço para o que ainda poderia lhe interessar. Ensaiou tanto para reconhecer - a si, aos outros, ao mundo -, que passou despercebida.
Não que haja leveza suficiente para aquietar suas angústias, mas prefere assim, o que lateja, não adormece. Estabeleceu, consigo mesma, um compromisso nada apaziguador, daqueles de arranhar as paredes da existência com as unhas da inconstância, e de atropelar com um sortimento de emoções que não se apega ao somente bom ou ruim. Decidiu não mais evitar o que a aproxima de uma existência de percepções, não de evasões. Decidiu permanecer em si.
O ensaio agora é outro.
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Este texto faz parte do Crônica de um ontem e foi publicado originalmente em 7 de setembro de 2022.



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