BEIJA-FLOR >> KIU OLIVEIRA


 

Desconfiei que era tu ontem, o beija-flor na janela de casa. Sei que vem nos ver quando os outros anjos descansam. A Laininha deu pulos diante da velocidade das tuas asas. Não contei que era a senhora porque prometi não dizer nada. Tem medo que eu fale com ela sobre a tua escolha? 

Preciso te fazer um pedido, minha mãe. 

(Silêncio) 

Laininha tem a tua cara, os mesmos olhos miúdos e úmidos. Também é fã da Mercedes Sosa, só dorme depois que coloco as músicas dela para tocar no celular. Pede pudim, todo domingo. Eu gostava mais quando tu preparava, pois nunca acerto a receita; quando não erro no ponto, falho na calda. A Selma ri do desastre de cozinheiro que me tornei. Ela sabe cuidar da Laine e de mim também. A senhora faria pudim pra Selma até em dias da semana. Ela acha que tem muito da senhora na Laine — isso me deixa feliz, mas também perturbado. A menina fala “mamãe” e “papai” o tempo todo. Ontem disse “vovó”, aconteceu depois de eu conversar com a senhora. Deu uma gastura aqui dentro. 

Sempre penso que, se a senhora tivesse suportado mais dois anos, veria os pezinhos da Laine, as perninhas, as mãos, o umbigo dela precisando de cuidados, e talvez mudasse de ideia. 

Caiu a ficha que um dia terei de falar da senhora pra ela. Sobre teu sorriso bonito, os doces que tu fazia e tua voz macia. Mas tenho medo de quando chegar o dia de ela ir para a escola, e algum colega criado sem doce a ferir com o passado desconhecido. Estive pensando se não seria melhor eu contar. Ela sairá para brincar na casa das amigas, irá ao coral da igreja, às aulas de inglês, depois, a tantos outros lugares, com várias pessoas. Não darei conta de esconder sua decisão sozinho. 

Eu mudo parte da tua história. Antes, preciso que vire beija-flor de novo e venha autorizar. 

Tu planejou ou foi no impulso? O que fizeram pra senhora... Foi no trabalho? Na rua? Meu pai? O teu? 

Vez ou outra recrio a cena: chego antes de a senhora parar de bater os pés, quando ainda tem luz nos teus olhos e cores na tua pele. Seguro em teu quadril e a suspendo o suficiente para a corda folgar no pescoço. Por fim, pergunto: por quê? Me conta: morrer dói menos que viver?

A realidade suplanta a imaginação. 

A senhora morreu tanto. Se permitir, invento uma morte menor. Deve ter maneiras de morrer menos. 

A Laininha é curiosa, um dia perguntará tudo. Até lá, volte à nossa janela.

Comentários

Anônimo disse…
Não tem como não emocionar...
Texto belíssimo!!!
Anônimo disse…
Não tem como não suspirar de admiração.
Zoraya Cesar disse…
Kiu, tanta beleza e tristeza derramadas assim só mesmo por um baita escritor ultra sensível. Essa sua sensibilidade me assombra, me assusta, me emociona.
Ionio Paschoalin disse…
Kiu, que lindo cara. Tem uma escrita bela, me lembrou autores portugueses. Só que com o seu estilo inconfundível.

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