SOBRE DUAS RODAS >> Albir José Inácio da Silva

 

Tudo começou na época ainda do velocípede. Caí, como caem os meninos. Não houve grandes prejuízos, só uns arranhões, mas me fizeram pensar na bicicleta. Se do velocípede eu caio, que dirá da bicicleta. Mesmo sem noções de física, desenvolvi teorias sobre a impossibilidade de uma bicicleta se equilibrar em duas rodas. Principalmente se eu estiver em cima dela.

 

Ainda andei de velocípede algumas vezes, sem queda, com medo no início e desinteresse depois. A única coisa que ficou foi a certeza de nunca conseguir andar de bicicleta. Quando todos os garotos tinham bicicleta, eu desconversava, dizia que não gostava, que tinha problema no joelho, que ia querer mesmo era uma moto e que bicicleta era coisa de criança.

 

Claro que minhas desculpas não valeram por muito tempo. Logo o “bullying” contra mim se espalhou pelos desafetos, pelos amigos e chegou aos parentes. Eu era medroso, desajeitado, esquisito e, o que era pior, desequilibrado. "Desequilibrado" me atingia com força dobrada. Além da impossibilidade de ficar sobre a bicicleta, significava problemas mentais. Nenhum xingamento dói tanto quanto aquele em que a gente acredita. E eu acreditava. Não, eu tinha certeza.

 

A coisa cresceu tanto que comecei a pensar que quem não conseguia andar de bicicleta não conseguiria mais nada na vida. Eu via crianças pequenas que ganhavam bicicleta num dia e no outro já estavam fazendo acrobacias. Da minha angústia ninguém sabia. Todos me achavam normal. Ninguém desconfiava do peso, da sensação de que a vida não tinha dado certo antes mesmo de começar. Eu evitava os grupos e os amigos. Porque amigos andavam de bicicleta.

 

O curso ginasial chegava ao fim e eu construí o impasse. Ou eu era um verme, ou ia viver a minha vida. E vida significava o científico, o vestibular, a faculdade e andar de bicicleta. Mas não nessa ordem.

 

Um bairro distante, uma praça, loja de aluguel de bicicletas, pernas tremendo e mãos suadas. Estendi a carteira de identidade e o dinheiro.

 

- Só a carteira. Paga na volta.

 

- Mas eu só quero uma hora... nem sei se vou ficar...

 

- Então você só paga uma hora... na volta.

 

O pedal bateu duas vezes na minha canela enquanto eu empurrava o problema pela calçada. Não senti dor. Não sentia nada. Não raciocinava. Só precisava andar de bicicleta. Era a encruzilhada da minha vida.

 

Passei o pé por cima do quadro e sentei no selim. A perna de apoio tremeu e pensei cair de lado. Respirei várias vezes, mas faltava ar. Ninguém por perto, conferi. Disposto a cair, impulsionei o corpo pra frente. Só deu tempo de apoiar o outro pé. Mais uma tentativa e desta vez coloquei os dois pés nos pedais. Duas voltas e de novo o pé no chão. Botar o pé no chão me impedia de cair. Isso quase me emocionou. Repeti as duas voltas no pedal por quatro ou cinco vezes, mas ainda estava insolúvel a questão de permanecer em equilíbrio.

 

Foi quando percebi que não estava sozinho. O garoto sentado no meio-fio falou comigo. Pele e roupa cobertas de poeira, ele tinha a cor da calçada, por isso não o tinha visto.

 

- Quando cair pra cá, vira o guidão pra cá. Se cair pra lá, vira o guidão pra lá.

 

Mais um impulso, duas voltas no pedal e, em vez de apoiar o pé direito no chão, viro o guidão pra direita. A bicicleta se inclina pra esquerda e repito a operação pro outro lado. Ando alguns metros em ziguezague até que o curso se estabiliza. No final da alameda, ponho os dois pés no chão e respiro fundo com o coração aos pulos. Então é isso?!

 

Fiz a volta, montei de novo e pedalei até onde estava o menino. Ele apenas balançou a cabeça como se dissesse: “Viu como é fácil?”. Repeti o trajeto algumas vezes e, quando parei, já sabia andar de bicicleta. Soube que o garoto morava por ali e aproveitava umas voltinhas quando os fregueses não completavam o tempo. Paguei mais uma hora pra ele e fui embora.

 

Houve outras importantes conquistas na minha vida: vestibular, empregos, graduações, pós-graduações e coisas que comemorei na época e de que já nem me lembro. Mas nada se compara a andar de bicicleta. Tive muitos e grandes mestres pela vida a fora, mas suspeito que não teria chegado até eles se não fosse aquele garoto empoeirado.

 

Suspeito também, embora não tenha me debruçado ainda sobre o assunto, que em “virar-se para o lado em que se está caindo” há mais coisas do que sonha minha vã filosofia.

 

Mas duas rodas são favas contadas. Preciso agora encontrar um menino que me ajude com o monociclo. E com a asa-delta.

 

Obs: Este texto integra o Projeto Crônicas de Um Ontem e foi publicado originalmente no dia 28/06/2010.

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