AZZARO >> ANDRÉ FERRER

IMAGEM: Gemini

No alto, o céu mudava de cor, mas indicava pouco. Não tinha condições de informar nada, aquele céu. Para dizer a verdade, nem céu era, mas apenas uma fresta na janela.

Dia. Noite. Chuva. No máximo, se a sombra do toldo estava recolhida ou abaixada. Em relação ao vento, nada revelava. Por isso, eu costumava ficar tão aflito. Por muitos anos, olhei para o céu a fim de verificar se a tarde estava boa para as pipas.

Avaliar o azul é inútil se o vento só se manifesta na folhagem e há pouco espaço, como naquele acesso, para a corrida das nuvens. Às vezes, há volutas e espirais, lá em cima, porém, sei por experiência que aqueles ventos altíssimos, com frequência, de nada servem.

Logo de manhã, vi que se tratava de um dia de céu limpo. Difícil precisar a qualidade do vento em dias assim. Ora! Pensando melhor, pouco importa. Já não existem amigos, nem infância, nem pipas para levantar.

De repente, escutei uma voz familiar. Os passos marciais ficaram próximos e se afastaram no corredor. Alarme falso.

Considerando-se o tempo transcorrido desde o almoço (filé de frango, sopa de ervilhas, gelatina de morango e suco de maracujá), ela voltaria a qualquer momento. Quando os dias parecem eternidades, aprende-se a confiar no mais duvidoso dos indicadores.

Silêncio lá fora. Em vão, eu dilatei as narinas porque ela usava o perfume do velho. Cheiro dos anos de 1980... Mais exato, algo entre 84 e 87, quando meu pai tomava banho de Azzaro todo santo dia... Mesmo (ou principalmente) nos dias de pescaria.

Ora! Como se não bastasse todo o sofrimento que ela trazia numa bandeja, diariamente, para mim, havia o perfume. Sim. O cheiro que anunciava convescotes e muita revolta materna quando eu era só um menino.

Vez ou outra, um barulho de riacho me atinge, mas eu sei lidar com as ilusões. Aquele mundo feito de praias de seixos, onde aconteciam combates com o peixe perfeito, já era. O mundo em que eu nasci acabou e a descarga do banheiro vizinho, atrás do drywall, é muito eficiente nesse negócio de me desiludir.

Naquela tarde, a pescaria e o rally de pipas tinham se perdido (o que, há anos, tornara-se normal para mim), então, pouco importava se o regato próximo escorria três ou quatro vezes numa tarde. A tripa de céu, a seu tempo, nada indicava sobre movimento. (Azul apenas.) Como em outros tantos dias, fiz o que pude: aguardei a marcha, o giro da maçaneta, o perfume. Dada a distância do almoço, ela logo apareceria.

Quando aconteceu, foi sem inovações. Checou o cubículo com atenção, mas não encontrou rota de fuga ou motim. Pediu para que eu mostrasse a face interna do braço.

Inclinada, começou a respirar atrás da máscara e senti o seu cheiro masculino. Vi suas mãos de martelo, que passavam álcool na minha pele, e o seu queixo duro de Batman, que se projetava enquanto o garrote apertava (o Batman, quero dizer, na versão do Frank Miller, cujo rosto parece talhado em, no máximo, dois ou três golpes).

— Quieto — disse ela.

Sem vontade, cerrei os lábios e observei aquela figura medonha. Exatamente o que se costumava chamar de matrona em outros tempos. Hoje em dia, decerto, há nomes politicamente muito corretos para aquilo.

— Pronto.

Recolheu, na bandeja, a seringa vermelha.

— Nem reclamou! — disse ela, e saiu.

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