MISANTROPIA >> ALLYNE FIORENTINO
Você já ouviu que as pessoas estão com
mais dificuldade de falar sobre seus sentimentos? Não apenas os homens, os tradicionais
seres humanos que costumavam ocultar suas emoções, mas toda a humanidade parece
estar meio sem saber o que dizer... É evidente que muito disso se deve ao fato
de não terem muitos sentimentos mesmo – decadência que não discorro aqui por
falta de caracteres – mas também porque o pouco que sentem, seus sentimentos
mais ocultos, talvez juvenis demais pra idade do corpo, quiçá verdadeiros
demais para a vergonha que sentem de serem humanos, não encontram saída
vocabular na realidade. Como falar daquilo que não é palpável sem vocabulário
pra isso?
Tudo já foi dito, diriam os versados.
Sim, tudo já foi dito, não há novo sob o Sol, não há sentimento humano que não
tenha sido prescrutado e de forma infinitamente melhor do que a nossa geração jamais
faria, entretanto, todo esse saber continua escrito e a linguagem continua a
ser um mistério para as pessoas. Domar os pensamentos por meio da palavra, esse
sonho freudiano, está cada vez mais distante quando é preciso esperar que algum
ser humano médio-raso poste um vídeo na rede social, um vídeo que “reflete exatamente
o que eu penso” para que algum outro ser humano médio-raso comente “nenhuma experiência
é individual”, como um papagaio ensinado também faria sem dificuldade alguma.
Ao mesmo tempo que aprenderam que “nenhuma
experiência é individual”, e agora repetem isso incessantemente, continuam acreditando
que as experiências, sentimentos, horrores e mazelas da nossa geração são
completamente novos, como se nossos antepassados não tivessem passado e
registrado nos livros tudo, absolutamente tudo, que é possível sentir ainda
hoje. “O que está acontecendo com o mundo?”, “Meu deus, as pessoas estão
perdendo a humanidade”... nenhuma dessas estupefações faria sentido se as palavras
dos antigos ainda estivessem ressoando na nossa memória, nos lembrando dos horrores
dos quais já passamos e poderíamos não repetir.
Há algum tempo institui-se que
qualquer coisa relativa ao passado era tediosa, difícil, dava sono e preguiça
uma linguagem rebuscada, que exigia sinapses demais... Penso que isso também
foi um mecanismo de defesa, um véu sobre a nossa realidade que, assim como
aquela, é também tediosa, difícil, dá sono e preguiça de viver, às vezes - dar
ordem ao caos exige mesmo muitas sinapses, muitas palavras... E elas, hoje, são
escassas. Um povo de palavras escassas é também um povo de imaginação escassa.
Estão nos prometendo um grande evento desde que o mundo é mundo, um arrebatamento, um apocalipse zumbi, uma invasão alienígena, qualquer coisa que nos faça acordar, estar de prontidão pra ser exterminados como se não houvesse existido mais do que um pequenino lapso de cultura humana sobre a Terra. Seria irônico se pelas palavras a gente acabasse caindo, se no pior momento, enfim, descobrissem o valor que elas têm. É perfeitamente possível te fazer cair da cama no meio da noite, em pânico, com uma palavra que você sequer sabe o significado. É como morrer, mas, como se não bastasse, morrer pelado.
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Imagem: Magnific.



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