DIA DOS NAMORADOS DE HORROR - MAS NAO MUITO >> Zoraya Cesar

Tanto tinham avisado, alertado, assustado, prevenido e agora ela estava ali, perdida no meio do mato, como uma idiota qualquer que se acha acima das cautelas do mundo. Como fora se perder do grupo? Num minuto ria e conversava com um colega; no outro... sozinha.

Estava acostumada a fazer trilhas? A acampar no mato? A lidar com a natureza selvagem? Estava. Uma geóloga de campo, no mínimo, sabia o básico. Além disso, tinha sido bandeirante.

Teria desmaiado? Isso não era incomum, mesmo entre os mais experientes - a opressão de uma mata fechada, os ruídos assustadores, os medos atávicos que herdamos de nossos ancestrais às vezes causavam uma síncope vasovagal. Vamos ver se estou delirando, e deu um pequeno arranhão no braço. Viu sim, que estava acordada e que cometera uma estupidez: os insetinhos bebedores de sangue avançaram avidamente, e ela teve um certo trabalho frenético para limpar, tampar a ferida ao mesmo tempo em que os afastava.

Quando terminou, ofegava. Preciso me acalmar, disse sua mente racional, ou morro é do coração. Gritou por socorro, já um tanto histérica. Só para perceber que cometera outra estupidez.

Se antes havia os ruídos da mata, agora um silêncio profundo e assustador seguiu-se ao grito por longos, longos, intermináveis instantes. Ela sentiu um abismo sem fundo abrir-se dentro dela, puxando-a para a escuridão. Jamais faria isso de novo.

Pequenas gotas de suor começaram a porejar em sua testa. Insetos zuniram, ávidos por aquela água tão saborosa. Ela secou o rosto com violência. Começou a respirar fundo. Calma, calma, calma. Não adianta entrar em pânico. Afinal, não sou uma urbanóide qualquer acostumada só a trabalho de escritório, cacete, sou uma geóloga de campo, não sou neófita, porra. Os palavrões a acalmaram um pouco. Analisou a situação:

- tanto a bússola quanto a lanterna, misteriosamente, pararam de funcionar

- não tinha mapa nem sinal do GPS 

(tudo isso já era, por si só, bastante estranho e inexplicável, mas o importante é manter a calma) 

- estava ficando sem água; para comer, apenas um sanduíche

- sua única arma era um canivete suíço

- estava anoitecendo

- e ficando muito frio

- estava anoitecendo

- e ficando cada vez mais frio...

Os ruídos da mata agora eram diferentes. Os habitantes do dia davam lugar aos da noite, e, com eles, o medo ancestral do homem do desconhecido. Ela não queria morrer ali, paralisada de medo e frio, para ser econtrada semidevorada dias depois. Talvez o acampamento estivesse perto, talvez a estivessem procurando. Teve uma brilhante ideia, aproveitar a pouca luz para voltar os passos, suas pegadas ainda estavam frescas no solo úmido. Por que não pensei nisso antes? Porque me deixei levar pelo pânico, idiota.

Alimentada pela esperança, ela seguiu seus próprios passos para trás. E seguiu, e seguiu e seguiu. Engraçado como estavam tão legíveis!

De repente, ouviu o som mais inusitado - e apavorante - de todos. Uma risadinha. Uma casquinada jocosa e maléfica.  

Ela rezou para não estar ficando louca. Calma, calma, calma. Devem ser crianças ribeirinhas fazendo troça com a doida que se perdeu. Importante é que me encontraram, estou salva.

Parou, ofegante de novo, o coração batendo nas têmporas. Já era hora de pararem a brincadeira e virem buscá-la. Estava cansada, faminta, cheia de arranhões e coceiras. Desistira de espantar os insetos, que chupassem seu sangue todo, queria era estar longe dali.

Foi aí que se deu conta. Estava de volta à mesma clareira. Como? Meu Deus, como? Mal via seus rastros agora, mas não teve dúvidas, era como se alguém, algo, os tivesse trocado de lugar para que voltassem ao mesmo ponto de partida.

E nesse instante, tudo aconteceu muito rápido. As últimas luzes do dia fizeram um click e desligaram. Tudo ficou escuro, tão escuro, que ela não conseguia enxergar a própria mão. E um frio glacial foi abraçando seu corpo, o vento enregelando ainda mais suas vestes suadas. E os sons! Altíssimos, e cada vez mais próximos, as criaturas da noite, definitivamente, despertas, saindo em busca de vida, em busca de morte, em busca de sobrevivência. E, lá no fundo, audível o suficiente para ela não achar que era ilusão, a malfadada risadinha. Ela começou a gemer baixinho, a boca tremendo, pensando em enfiar o canivete no coração e acabar logo com aquilo.

Não! Espere! Seu nome! Ela ouviu alguém chamar seu nome. Deus! Graças! Ouviu longe, mas não muito. Seu nome! Estavam procurando por ela! Que se matar o que, pensamento de gente derrotada! Devia ser a fome! Estou aqui!, gritou, estou aqui, e correu em direção ao chamado. Correu pra cá, correu pra lá, os gritos com seu nome a cada hora pareciam vir de uma direção. Bateu-se em árvores, arranhou-se em espinhos, dezenas de sanguessugas se agarraram em sua pele quando ela passou num pequeno pântano, suas roupas se rasgaram. Quando, finalmente, a exaustão a fez parar, notou que estava ainda mais perdida, mais machucada, mais fraca. As vozes tinham parado, o silêncio era total, quebrado apenas por sua respiração estertorante e pelas batidas desencontradas de seu coração. E por aquele casquinar enlouquecedor.

Ela perdeu o controle. Gritou, gritou até perder as forças e cair, de cara no cháo, quase desfalecida de terror. Algumas formas gosmentas se aproximaram, tentando entrar em sua boca. 

Aquele horror não teria fim? Sim, teria, e seria rápido, pensou, ao ouvir o inconfundível esturro de uma onça pintada. 

O esturro estava cada vez mais perto. Em sua imaginação, podia sentir o hálito pútrido da fera. Que morte horrível, ter o crânio perfurado e sentir dor até o último instante.

Mas o que sentiu não foi dor. Foi, isso sim, cheiro de fumo. Fumo? Sim. E um barulhinho baixinho e firme de uma pitada de cachimbo. O estranhamento foi tanto, que, mesmo não enxergando nada, ela levantou a cabeça e abriu os olhos.

Estou louca. Tenho de estar. À sua frente, olhando para ela com brilhantes olhos de jaboticaba, um serzinho pretinho e nu, de uma perna só, barrete vermelho na cabeça brasa, pitava vigorosamente um cachimbinho de madeira, cuja brasa  alumiava ao redor, vencendo a escuridão.   


O serzinho baforou vigorosamente sobre ela, cobrindo-a de fumaça. E foi aí que a mágica aconteceu. Uma onça passou por ali, perto, pertíssimo deles. Mais um pouco, encostava. Farejou, farejou por sobre o corpo tremente da moça. Rosnou, frustrada, e foi embora. Ali não havia nada, só aquele cheiro fedido de fumo de um saci nojento que sempre escapava de suas garras.

O saci botou o dedo nos lábios, pedindo silêncio, e fez sinal para que ela o acompanhasse. Sem acreditar nem em si mesma, mas não tendo nada a perder, ela foi. E andaram, andaram, andaram, até chegar ao acampamento de sua equipe. Ao dar o primeiro passo em terra conhecida, ela desmaiou.

---

Acordou na cama de campanha, soro na veia, se perguntando se não desmaiara logo no início da trilha, e tudo não passara de um delírio.

Mas o chefe da expedição, Caboclo Matias, veio explicar. Ela podia acreditar ou não, mas ele ia dizer. Ora se ia. Saci salvou a senhora. Ninguém sabe como a senhora se perdeu, só pode ter sido o Curupira. Mas o fato é que Saci interveio. E sabe por quê? Caboclo Matias sorriu, ao ver a incredulidade mesclada com curiosidade nos olhos da jovem geóloga. Porque a senhora não deixou que seu colega arrancasse uma orelha de pau do tronco. Os seres da floresta sempre ajudam quem os respeita. Ele levantou, a senhora precisa descansar, passou um dia dos namorados muito estranho.

Mas ela não descansou. Não parava de pensar. Então tudo acontecera realmente, mas não pode ser, ‘encantados’ da floresta não existem. Queria encontrar explicações racionais, Caboclo Matias era um bom homem, mas supersticioso, como todo homem da floresta. Não pode ser. Simplesmente devia ter uma explicação científica. Seu coração inquieto dizia uma coisa; sua mente, outra. O dilema estava ficando insuportável.

Virou-se, então, cuidadosamente, para não tirar agulha da veia, e se ajeitou para tentar dormir. Ao colocar a mão debaixo do travesseiro, seus dedos tocaram em algo estranho.

Puxou para fora. Era um barrete, um barretinho vermelho bem pequeno, dentro do qual havia um pouco de fumo. E uma orelha de pau. A moça rendeu-se. O coração venceu a razão. Acreditar, às vezes, era a melhor solução. E havia, realmente, mais coisas entre o céu e a terra que a nossa vã imaginação pode criar.

- Feliz dia dos namorados, Sacizinho. Obrigada por tudo.

"Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia."

Ato I, Cena V (Cena 5) da peça Hamlet - Shakespeare


Tomei algumas liberdades poéticas em relação ao folclore do Saci Pererê. Mas fui autorizada pelo  Conselho dos Sacis Sacizantes do Brasil. 

Série Dia dos Namorados


DIA DOS NAMORADOS DE HORROR - MAS NAO MUITO - 2026

 DIA DOS NAMORADOS PARA SEMPRE - 2025

DIA DOS NAMORADOS ESTRANHO. MAS ATÉ FOFINHO. (UM POUCO) - 2024 

UMA HISTÓRIA PARA O DIA DOS NAMORADOS UM TANTINHO MACABRA, MAS FOFINHA - 2023

FELIZ DIA DOS NAMORADOS, D. LETÍCIA - 2021

FELIZ DIA DOS NAMORADOS, PATRÃOZINHO - 2020

UMA PRAÇA, UM HOMEM, UM JORNAL E O DESTINO - 2016

AMOR E REDENÇÃO - 2019

Comentários

branco disse…
Caída com a cara no chão esperando a pintada... Hummm, sei... Mas, serião, eu li seu conto como leio normalmente e, depois, li mais rapidamente. Acho que ficou mais 'de acordo' com o ritmo alucinante e alucinógeno da história, por sinal, sempre escrita com a maestria da autora. Acredito que ele deva ser lido rapidamente, e acreditar faz toda a diferença.
Anônimo disse…
Curupira e Saci no dia dos namorados! Os seres da floresta querendo comemorar o dia. Cada um do seu jeito. Só faltou o boto cor de rosa para mostrar o resultado 9 meses depois! 🤔😁
Anônimo disse…
E eu, lendo ansiosa, sentido cada momento com a personagem. Não esperava a aparição do Saci!!!! Surpreendida! Mas teve final feliz!
Ionio Paschoalin disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Ionio Paschoalin disse…
UAU, que catarse!! P.... texto, que me deixou com medo! Prometo jamais encostar em um nada que pertença a flora brasileira. Ainda é um mistério o tipo de fumo que o senhor Saci pitava durante esse ocorrido. Mas ele foi solícito e benevolente. Arrasador Zoraya, só você escreve assim
Marcio disse…
Nossos profícuos legisladores instituíram que 31 de outubro é o Dia do Saci - para rivalizar com o Halloween no calendário.
Pelo jeito, o Saci da Zoraya resolveu que o Dia dos Namorados era mais apropriado para suas aventuras.
Pegando carona no que um comentarista anônimo escreveu acima, eu acho que em março do ano que vem a geóloga receberá um sacizinho (gestações de sacis duram nove meses?).
Nota de rodapé: no milênio passado, trabalhei com a esposa do Romeu Evaristo, ator que viveu o Saci no "Sítio do Picapau Amarelo" na década de 80.
Confesso que fiquei surpreso ao descobrir que ele tinha as duas pernas.
Érica disse…
Pobre geóloga... Zoraya arranjou um dia dos namorados estranho pra ela. E esse saci bonzinho? Tá parecendo mais história da carochinha hahaha
Albir disse…
Que bom que dessa vez escolheu nosso folclore para assombrar. Fico com medo, sim, mas também nostálgico.

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