ENCRUZILHADA >> Paulo Meireles Barguil

E, mais uma vez, ele tinha a sensação de que estava quadriculando.


Não tinha dúvidas de que muito tempo havia se passado.


Ignorava, contudo, se as esquinas eram realmente novas ou se apenas as molduras tinham mudado.


Olhou para o chão, porém as pedras nada falaram.


Olhou para o céu, mas estrelas não apareceram.


Procurou um rosto ou corpo conhecido, contudo a busca foi inútil.


Nem o espelho lhe ajudou neste momento.


Sabia que a areia continuaria a descer até o último grão.


Atordoado, ele abraçou a sua sombra e adormeceu.

Comentários

  1. Paulo, essa da gente não conhecer mais o próprio rosto é muito forte e verdadeiro. Belo texto.

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  2. Adormecer, amortecer, esvanescer... No fim de tudo, tem alguma diferença, se o estranhamento da nossa própria existência acontece?

    Adorei o "estava quadriculado" e doeu lembrar que os grãos de areia continuarão a cair. Por fim, ve-lo abraçar (acolher?) a própria sombra é uma metáfora linda.

    Um baita texto, Paulo!
    Gde abço

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  3. Que beleza, Paulo!
    "Nem o espelho ajudou nesse momento"!

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