GRISALHOS >> Ana Raja


Definitivamente, sala de espera de consultório médico é fonte de temas para quem gosta de escrever. Além disso, também pode servir para reflexão, adquirir conhecimento ou mesmo para trabalhar a escuta ativa: ouvir vários posicionamentos relacionados a um mesmo assunto.

A especialidade era otorrinolaringologia. Meio da semana, logo depois do almoço, sol quente lá fora e ar-condicionado ligado lá dentro. Cheguei calada, cara de poucos amigos, a preguiça do estômago cheio me dominava. A recepção era comandada por seis mulheres, contando com a secretária. Me chamou a atenção a unanimidade do público feminino. Será que até nas doenças auditivas somos mais vulneráveis do que os homens? 

Era a minha primeira consulta, indicação de uma amiga que disse aquela ser a melhor especialista em tonturas. Há algum tempo, algumas coisas andam me deixando tonta além da conta. Mas a doutora também entende de zumbido no ouvido e de doenças que prejudicam a audição depois de uma certa idade. 

Quase tudo hoje em dia está relacionado ao depois de uma certa idade, o que não sei se significa esperança ou constatação do inevitável. Melhor deixar isso de lado.

Depois de todos os trâmites, me sentei e esperei a tão aguardada consulta. Como não estava com vontade de interagir, travei um diálogo interno. “Nossa, espero que essa médica acerte o meu diagnóstico. Dois meses de espera para uma consulta é sinal de que a médica é muito boa...ou não. Será que todo mundo aqui sofre com tontura? Ainda tenho que escrever a crônica de domingo. Amanhã tem o lançamento do livro da minha amiga. A carne está em promoção no mercado perto de casa”.

Então, o assunto acabou. Resolvi escutar — espectadora — a conversa de duas mulheres que reclamavam do envelhecimento e de sua crueldade. 

Estavam indignadas e riam em alguns momentos, não sei se de nervoso ou por acharem graça no assunto. Ainda não tinha entendido o motivo que as deixava naquele estado, falando baixo, ao menos não até outra paciente entrar no assunto:

— Ninguém merece pelo branco na periquita.

Silêncio na sala. Demorei alguns segundos para visualizar no meu pensamento uma “periquita” com pelo branco. A outra falou mais alto:

— Fim de carreira! 

Gargalhadas e receitas caseiras para resolver  a situação tomaram conta do lugar. 

Primeira opção certeira seria a depilação a laser. Porém, se os pelos brancos tivessem dominado o ambiente, não resolveria. A luz do laser só reconhece o pigmento escuro. Existe no mercado tintas próprias para a região íntima e com bons resultados. Também há a opção de assumi-los, afinal, o grisalho íntimo não vai competir com a cabeleira grisalha da cabeça. 

E, assim, o tempo foi passando rápido para todas nós. Mas devo concordar com todas as mulheres que aguardavam a tão famosa médica: sacanagem!

E se alguém quiser saber como foi a minha consulta, deixo o resultado aqui para vocês: Migrânea vestibular. A minha enxaqueca, agora vem acompanhada de tontura. A doutora explicou que, depois de uma certa idade, isso pode acontecer. 

O que mais pode nos acontecer depois de certa idade? 

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As dores delas, livro de Ana Raja, está à venda em www.editoraurutau.com.

anaraja.com.br


Comentários

  1. hahaha, amo encontro de mulheres que acaba com informações úteis. Tinta para pentelhos brancos! O lance 'depois de certa idade' é a nova virose. Até ha pouco tempo a gente ia no médico e se ele nao soubesse o que era, lascava um 'é virose'. Agora é isso: 'depois de certa idade'...

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  2. Meu pai dizia que “o tempo cria monstros” enquanto se encarava no espelho. Depois, ele dava um sorriso meio resignado, meio despachado. Acho que é assim que a gente leva a vida depois de uma certa idade.

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  3. Contaram- me que uma amiga comum, que namorava um oficial do exército no tempo da ditadura, pintou de verde bandeira as suas penugens.
    E que o patriótico soldado, no primeiro encontro, ao se deparar com a simbólica cor, perfilou-se e prestou continência.

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